VITÓRIA SEM VOLTA OLÍMPICA

Muitas pessoas precisam estar em um estádio ou seus arredores pra sentir, através dos cinco sentidos, o quão frenético e arrepiante é um dia de jogo decisivo. Eu não.
Na solidão do quarto, ou no máximo com a prenda, sinto cada palma, cada batida de bumbo, cada grito de alento, cada cântico entoado, e confesso que por vezes sinto o cheiro do churrasco que se espalha pelo ambiente, o perfume de cada moça gremista (as mais belas do mundo), o cheiro de grama da beira do alambrado.
A noite da quinta-feira, em que o famigerado “feicy”, e a falta de mangos para ir à Arena, tiraram-me a possibilidade de ver meu Imortal em campo, recorri ao rádio pra acompanhar à partida. Confesso que o primeiro tempo deixou-me apreensivo. Aquele ambiente mágico que foi criado gelava a espinha num arrepio típico de uma noite de Grêmio, mas o time, apesar dos 70% de posse de bola, caía na velha armadilha de quem aqui vem jogar: dar a bola e estacionar o bitruque à frente da meta. André seguia como a figura nula de sempre, e nada do Renato trocar. Claro, certamente treinando o time pra aprender a jogar com 10 no caso de uma expulsão. Baita sacada! Tanto que, após a expulsão de Geromel, foi o próprio André a sair. Claro, não faria nenhuma diferença. Tanto que daqui, do outro lado do rádio, senti uma Arena pulsando dobrado, algo inimaginável após a expulsão de um mito! David Braz provou o que a IVI fez questão de tripudiar: é perigoso nas duas áreas mesmo, embora ontem eles tenham silenciado a respeito. Estranho né? E Tardelli, bem…o gol da redenção veio ao melhor estilo IVI “como eu gostaria que um dos nossos fizesse uma pintura dessa!”.
O jogo apresentou duas facetas que me surpreenderam: fizemos dois gols de bola aérea e Renato finalmente colocou o Tardelli na posição que eu exijo desde sua chegada: centroavante!
Por fim, a narração de Marco de Vargas, pra quem conseguiu acompanhar. Sem pudor afirmo que arrancou lágrimas despretensiosas e incontidas de minha parte. Que bom seria se os “narradores” aqui da aldeia fizessem 10% disso. Mas como exigir, se os gols do Grêmio são, por motivos óbvios, narrados com amargor, ao melhor estilo padre dando a extrema-unção?
A noite Tricolor foi daquelas pra lavar a alma. De tanto treinar com 10 em campo aprendemos que dá pra ganhar assim. David Braz entrou e correspondeu, Tardelli mostrou a que veio e, por fim, o menino cuja mãe fora covardemente agredida no Grenal, mostrou ser um baita pé quente. E seu pai, colorado, de um espírito esportivo ímpar, liquidando com uma “repórter” que caçou clique e teve que ajuntar os dedos no chão.
Foi uma noite de Grêmio. Noite de um time que vence e não dá volta olímpica por isso. A vitória que nos levará às quartas-de-final de mais uma Libertadores, e também a volta do entusiasmo que tínhamos no início da temporada.
Sempre digo que tudo se decide entre novembro e dezembro. Quando o ambiente pulsa mais do que o normal, os cheiros e perfumes se misturam, o arrepio na espinha triplica e as voltas olímpicas fazem algum sentido.
Aliás, é essa a volta olímpica com a qual que nos acostumamos. O resto é mera euforia passageira de quem sabe que jamais será o Imortal Tricolor.

FOTO: LUCAS UEBEL/GREMIO FBPA

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