QUATORZE ANOS DA BATALHA DOS AFLITOS

Era dia 26 de novembro de 2005. Era um sábado. Recife estava quente, quente, muito quente. Eu chegara à capital pernambucana na quinta-feira pela manhã porque tinha uma audiência naquela tarde. Iria embora no sábado cedo.

Na sexta à tarde, porém, o inesperado teve lugar: um rapaz do hotel ofereceu-me um ingresso para a partida nos Aflitos. Nem acreditei. Comprei-lhe o bilhete; com algum ágio, verdade, mas dentro do razoável. Havia um problema, todavia: era na torcida do Náutico. Como os ingressos estavam esgotados, aceitei sem imaginar sequer a tarde inolvidável que teria no dia subseqüente. Remarquei o meu vôo para domingo à noite. E estava pronto para a partida no dia seguinte.

Sábado de manhã, dia da partida, fui à sinagoga. Almocei na casa de um conhecido e ele dispôs-se a levar-me aos Aflitos, o que aquiesci de muito bom grado. Fui de camisa branca. Não podia ir fardado, até porque meu ingresso era no meio dos adversários.

Meu amigo pernambucano pediu-me para não abrir a boca. Temia que o meu sotaque gauchesco causasse-nos problemas, quiçá entreveros. Assenti, tendo até passado por mal educado quando fui abordado por uma senhora que me perguntava as horas. Tudo para não dar problemas.

Chegando ao estádio, o meu amigo conversou com um conhecido que ele encontrara por acaso e esse, dirigente do Náutico, deu-me um passe para ir para a torcida do Grêmio. Nem acreditei. Achei auspicioso o acontecimento e, após efusivamente o agradecer, fui para a área da torcida gremista.

O estádio dos Aflitos era um purgatório.
O calor em brasa, insuportável, fazia-me transpirar profusamente e o sol, inclemente, fustigava-nos. A torcida do Náutico lançava-nos toda a sorte de impropérios e objetos. Um forte cheiro de tinta e amoníaco pairavam no ar. Uma senhorinha, ao meu lado, passou mal e foi retirada pelo serviço médico e ainda faltava quase uma hora para a partida.

Eu, gordo, alto e barbudo, virei alvo dos copos e outros objetos lançados sobre a gente. A coisa chegou a uma situação tal que os PM locais foram à grade dispersar a torcida do time da casa.

A ansiedade de todos nós era palpável. Temíamos ficar na série B. Eu, sinceramente, vituperava contra alguns jogos que havíamos feitos antes, empates idiotas que nos conduziam àquela situação esdrúxula de termos de vencer de qualquer maneira ou ficarmos na série B (temos lá, infelizmente, uma certa tradição de desperdiçar pontos importantes em jogos teoricamente fáceis). Claro que a IVI vaticinava nossa derrocada. Do outro lado da cidade, Santa Cruz e Portuguesa começaram a jogar. Nosso jogo começou dez minutos após o deles.

E após uma longa espera, nosso jogo começou. As informações que nos chegavam davam conta de problemas no vestiário. Alguns jogadores tricolores estavam nitidamente nauseados quando subiram ao gramado. A revolta era grande.
Eu estava muito nervoso, confesso. Ao meu lado, um casal. Ele, pernambucano, tenente da PM. Ela, Tatiana, gaúcha de Santo Ângelo. Ele, torcedor do Sport, a acompanhava.

Não preciso comentar o jogo. Todos sabemos o que houve. Falarei apenas a partir da segunda penalidade contrária. Os repórteres da Gaúcha que estavam ao pé de mim falavam em continuação na série B e não escondiam a satisfação. Xinguei um deles. Literalmente o expulsei da arquibancada. Em campo, era a guerra.

Era a guerra porque o árbitro ladrão e mal intencionado acabara de marcar o segundo pênalti contra nós. Que desgraça! Que desespero! Tatiana, ao meu lado, chorava copiosamente. Enterrara a cabeça no peito do marido e recusava-se a olhar o campo. Eu fervia de raiva e indignação. Xingava, xingava e xingava.

O relógio avançava impiedoso. As expulsões todas, a arbitragem desastrosa e a paralisação enorme. Agonia literalmente. O rádio contava-nos que o Santa Cruz já estava dando volta Olímpica com a taça.
Havia dirigentes do Grêmio que, à beira-campo, gritavam para o Odone fazer o time sair do campo. Não jogar mais. Na arquibancada, estávamos divididos. Eu temia que o time abandonasse a partida; seria a pior das opções porque, além de nos fazer ficar na penumbra, inevitavelmente nos conduziria à punições. Agradeci a D’s (sim, perturbei muito o Criador com isso) por ter a razão prevalecido, o Grêmio ter continuado em campo e o jogador do náutico foi cobrar o penal.

E eis que o Galatto defendeu. Não posso contar como aquilo me aqueceu e empolgou-me. Gritei muito. Soltei palavrões de corar estivador. A IVI, hoje, diz que foi sorte, que foi o joelho, minimizando o feito. Mas foi outra coisa: foi estofo de combatente, foi reflexo de bom goleiro, foi garra de gremista. E estávamos no páreo porque o empate, ao menos, nos conduzia de volta.

Chega, então, o minuto 61. Sim. O desespero era enorme. Quatro a menos, toda a violência, a PM de PE tinha agredido nossos jogadores em campo (fato, aliás, que ficou impune). Tudo conspirava contra o Grêmio.

Só que o Grêmio é maior. Só que o Grêmio é sangue e garra gaúchos. O Grêmio é time aguerrido, bravo e forte. A virtude dos Imortais Tricolores prevaleceu sobre todas as vilanias que havíamos sofrido naquele dia.

Anderson sofrera falta. Levantou. Cobrou-a. Chegou perto, passou para a direita e chutou. Segundos em que o universo esteve paralisado. GOOOOLLL.
Gol do Grêmio.
Éramos campeões. Superáramos as adversidades, a torcida contrária dos secadores da imprensa, tudo e mais alguma coisa.

Entre nós, na torcida, que não arredara o pé, era a incredulidade, a alegria. Chorei, não nego. Cantávamos o hino do clube. Repetidamente. Sem parar. Intercalávamos com o hino do Rio Grande do Sul. A torcida do Náutico deixava o estádio, incrédula.

E eis que termina o jogo. Que turbilhão de coisas passava-me à cabeça. Vibrava, cantava, dançava. Beijei umas quantas gurias que estavam no entorno. Daí soubemos que a taça estava vindo de helicóptero do estádio do Santa Cruz que já havia se apossado dela.

E vi a volta olímpica. E não parávamos de cantar.

Levamos horas para sermos liberados a sair do estádio. Eu consegui ser liberado algo mais cedo mais cedo por conta daquele casal cujo marido era brigadiano local. Fui calado até o táxi e voltei para o hotel.

Não dormi aquela noite. E nunca mais esqueci ou esquecerei desse dia.
Por isso, quando os invejosos vierem dizer que estávamos e estamos celebrando a série B, tu, gremista amigo, não faças caso. Ignora essa alma estúpida e deixa-a de lado porque ela não sabe o que é grandeza.

O que comemoramos é a grandeza e a superação, é o sangue tricolor de todas as cores e crenças, é a grandeza da Nação Gremista que está sempre apoiando, não importa como e onde.

O que celebramos é o gauchesco senso de combate e de honra, de tradição pampeana e grande, de ficar de pé e de ser aguerrido. Coisas que outros clubes de menor expressão do RS não entendem e não entenderão nunca; afinal, são desmemoriados e dependentes eternos da ajuda oficial e oficiosa das instituições.

O que festejamos é a nossa independência e a nossa galhardia. E isso, nunca nos poderão tirar, porque, em nossas veias, está o sangue azul, preto e branco, do maior do Rio Grande, do maior do Brasil, do maior do Mundo.

Aquele jogo ensinou que a perseverança, a crença, o trabalho árduo conduzem ao pináculo da Glória. Isso me tocou e continuo a gostar disso.

Todo o gremista tem o dever de celebrar o amor ao clube e o feito extraordinário. Não comemoramos a série B. Comemoramos, festejamos, celebramos e prestamos reverência ao Grêmio.

Quatorze anos da batalha dos aflitos. Eu estive lá. E o Grêmio, muito maior, estava, está e estará sempre dentro do meu peito. Inesquecível. VIVA O GRÊMIO.

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