OS HERÓIS IMPROVÁVEIS

Acabou o recreio. Chegou a hora da verdade. Flamengo e Grêmio, dois clubes com histórias monstruosas, mas com apenas uma chance de conquistar a América. A chance que passa por noventa minutos mais acréscimos.

Paradoxalmente, ambos ambicionam uma mesma vaga, mas por diferentes motivos. De um lado, o Imortal, ainda mordido pelo furto praticado na edição 2018 da competição, aliado ao ranço com a Conmebol por ter “dado de ombros” quando buscamos nosso direito – nem é questão de vaga, mas ao menos o reconhecimento dos erros e uma severa punição ao River, que jamais aconteceu. E do outro lado o Flamengo. O clube mais “coincidentemente auxiliado” pela arbitragem historicamente, ao lado do Corinthians e do ex-tradicional-rival.

Esse mesmo Flamengo que minha geração não viu vencer uma Libertadores, com a necessidade de responder às recorrentes cornetas.
Nessa briga de facão três listras, ou três cores, contra a 9mm dos rubro-negros, minha intuição leva-me a um herói improvável. Do lado deles, que se virem. Falo dos nossos.

Não sabemos que alineación Renato e seus BlueLegends apresentarão. Mas com certeza alguns desses iniciarão a partida, ou entrarão em seu decorrer. Inicio por Galhardo, que não considero essa desgraça pregada, mas que talvez seja o segundo jogador mais contestado do elenco, alguns décimos abaixo de André Balada. Pararam pra imaginar um gol do André em cruzamento do Galhardo a 44 do segundo tempo, gol da classificação?

E Thaciano? O velho mais jovem que já conheci (depois do Maidana, lembram?) dando aquela assistência monstra, ou guardando uma bicuda da entrada da área.
Rômulo não pode jogar, e fiquei grato ao amigo Ramiro Madureira pela informação. Aliviou um pouco a tensão da minha alma.

Por falar em tensão, teria como haver herói mais improvável do que os citados? Sim. Um amigo meu me falou que Michel fará o gol da classificação. “Pode vir aqui me cobrar depois!” disse ele. Num canto do mesmo recinto, outro gritou: “2×2, gols do Alisson no primeiro tempo e Capixaba a 46 do segundo.”

Muitos olharam espantados. Eu não. Lembrei dos gols malucos que culminaram na renovação do contrato de nosso lateral, que não passa de mediano. E pensei, por que não?

Mas e se o jogo acabar no já aceitável 1×1? Aí sim, hora de entrar em cena o mais improvável dos heróis: Paulo Victor. Conhecemos suas limitações, mas quem sabe duas ou três defesas de pênaltis, quiçá apenas uma, não lhe dêem a confiança que ainda falta pra consolida-lo como o bom goleiro que tanto necessitamos?

Eliminar o Flamengo no Maraca lotado nos pênaltis se assemelharia àquela partida contra o Athletico, à época ainda Atlético, em que Grohe falhou no gol do André Lima, e tornou-se protagonista da classificação e dos subsequentes títulos, a partir de seus pênaltis defendidos naquela fatídica noite.

A história do Grêmio é recheada de heróis improváveis. O finado Caio, com a assistência milimétrica pra Renato, que nos deu um Mundial de Clubes. César contra o Peñarol, a primeira Libertadores. Aílton contra a Lusa em 96. Galatto, o goleiro que treinava como zagueiro no malfadado 2005, pelo excesso de arqueiros e falta de defensores, se tornando meses depois o herói do maior feito da história do futebol. Cícero, contrato de risco pra fazer o gol que abriu o Tri América, com assistência de Jael.

Não quero me alongar, então deixo um recado: a batalha nem sempre é vencida pelas estratégias dos generais…um tiro certeiro de um soldado raso pode fazer inimaginável e letal estrago. Se isso acontecer contra o Flamengo, e todos nós sobrevivermos, passaremos dos 80 anos de idade fácil.

Ver mais um herói improvável nos conduzindo ao Tetra América nem seria mais teste pra cardíaco…seria uma nota 10 em apresentação de TCC com assunto “Bíblia” para os mais céticos entre os ateus.

Foto: Flickr Grêmio

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