CONSELHO AO MEU NOVO AMIGO

Esse fato deu-se em uma noite de inverno, durante uma de minhas andanças por esse Rio Grande de São Pedro. Falo em noite pra ser generoso. Os ponteiros do relógio já se haviam desavizinhado do marco zero há vários minutos, em torno de trinta.

Como me era corriqueiro, adentrei um afamado pub daquela cidade, para a qual chegara menos de quatro horas antes. Lá na penumbra do balcão, muito próximo à mesa de bilhar, aonde dois outrora e posteriores transeuntes efetuavam as derradeiras tacadas, estava aquele moço sentado. Traje fino, tênis de marca. Agasalhado, embora o ambiente fosse climatizado.

Em meio ao copo de whisky já “caubói”, percebeu minha aproximação. “Criei pavor desse frio”, disse-me ele sem sequer cumprimentar-me. Seus traços sob o capuz pareciam-me familiares. Como se eu já o tivesse visto, na televisão quem sabe. Ora, na televisão eu praticamente só assisto esportes. Seria quem eu imaginava? Aproveitei a brecha, pedi um whisky “igual ao do moço” e indaguei seu nome.
“Faz diferença pra você?”, a inolvidável resposta. Ao mesmo tempo em que queria dizer que sim, algo em meu íntimo implorava um “não”. Ao menos por enquanto.

“Era bem melhor em Santos, no Nordeste…nunca me adaptarei a esse clima. Morei na Ucrânia. Foi uma experiência inesquecível. E triste. Não existe nada que acalente uma alma perdida, um ego tombado diante da realidade, alguém que talvez esteja na profissão errada. Povo frio, igual ao do seu estado, igual ao do seu inverno.”
Não marejava o olhar, mas a tristeza misturada com a iminente ressaca eram evidentes então.

Questionei-lhe o porque de permanecer, enquanto aos poucos reconhecia os traços e o sotaque do forasteiro. “Não posso sair agora…não posso…”, repetia ele enquanto degustava seus últimos milímetros cúbicos de whisky. Tirou 500 reais meio amassados de um dos bolsos da luxuosa calça jeans, pediu ao garçom pra que fechasse sua conta “por hoje”, incluindo o meu consumo. Ainda arrematou: “deixe-o à vontade até esse troco acabar. O restante é sua gorjeta.”

Um tanto quanto grogue, o moço fez uma ligação, e em minutos um táxi se aproximou. “Ei! Para onde vai?”. Respondeu-me que precisava trabalhar na manhã seguinte. Assim como eu. Mas por outros motivos, com outro contracheque. Aproximei-me depressa, e antes que ele entrasse no transporte, indaguei se haveria algo que eu pudesse fazer para ajuda-lo naquele momento. Um sorriso de fartos dentes, o primeiro da noite/madrugada, respondeu-me com todas as letras: ninguém queria saber dele por aqui. O fato de ter tido minha atenção por alguns minutos já foi um acalento.

Tive a certeza de quem se tratava no momento em que meu novo amigo citou o endereço ao chofer. E antes que fechasse a porta, pedi pra que me alcançasse o papel e a caneta que repousavam no porta-inutilidades do táxi.
Escrevi e coloquei em seu bolso. Falar não adiantaria, visto seu estado alcoólico. Antes de sua partida, citei que era pro seu bem.
E lá foi-se aquela condução, rumo a algum ponto da cidade, como fizera inúmeras vezes durante as madrugadas urbanas, agasalhadas apenas pelas luminárias e pelas canções que ecoavam, provindas das goelas dos boêmios sobreviventes. Em seu banco do passageiro, um cidadão comum, como outro qualquer. Com um bilhete no bolso da elegante camisa social de afamada grife:

“Caro novo amigo. Percebi que és bom sujeito, mas vives a crise de identidade natural de todos que ainda não acharam seu caminho. Agora que sei quem tu és, posso ajudar-te a ser feliz aqui nos Pampas.
Apenas simule uma lesão às vésperas de 23 de outubro, que o tirará pelo restante da temporada. Pro seu bem, e de toda a nação gremista.
Terás a honra de aparecer no pôster do título. Diante do que vi hoje, está mais do que bom, certo?
E depois, sejas feliz em outros rincões.
Abraços cordiais.”

Sei que a essa hora ele já deve ter lido. E espero de coração que tenha levado a sério. Caso tenha, dia 24 de outubro o procurarei novamente naquele mesmo pub. Darei-lhe um fraternal abraço, e agradecerei. Mentir pra muitos em defesa de uma causa não é pecado. Mentir pra si mesmo, é. Cabe a cada um entender o que de fato vale a pena.

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