A MALDIÇÃO DA ESTÁTUA

O que explica a atual situação do Grêmio e o decréscimo produtivo que vimos observando? Nada me parece explicar melhor nosso momento do que “a maldição da estátua” ou, para latinizar a coisa e elevá-la à mais tenra filosofia, “vanitas vanitatum et omnia vanitas”, como está no Eclesiastes, ou, na Última Flor do Lácio, “vaidade das vaidades, tudo é vaidade”.

Muito há o que se dizer, mas o espaço é curto, o tempo urge e a teimosia renatiana irrita. Já vou logo adiantando: não sou daqueles que inexoravelmente advoga pela imediata substituição do técnico, muito embora minha cota de paciência já tenha ido para as calendas gregas há muito (alô, Delfos, alô). E no jogo de quarta-feira passada, contra o Aflético, abespinhei-me sobremaneira porque ali houve, novamente, para nossa exasperação, a vitória da teimosia sobre a razão, do bruxismo sobre o conhecimento, da soberba sobre a realidade e da falácia sobre o fato. E, assim, cresce a insatisfação dos gremistas e a sombra do ídolo Renato balança, em que pese já um certo alívio pelo resultado de ontem, em que nós conseguimos garantir a classificação para a fase de grupos da Libertadores.

Antes que algum apressado venha criticar-nos, ninguém põe em dúvida o papel de ídolo de Renato como jogador. A importância que ele teve nas conquistas que conseguíramos em 16 e 17, colocando fim àquele vergonhoso jejum de títulos. Méritos incontestáveis. E é justamente aí que eu queria chegar: o Renato de 2017 serve-me. O de 2019, não. E o que separa os dois renatos? A estátua.

O sacerdote que se auto-elogia tem a congregação de um só. E estamos chegando a este ponto lamentável em que não se está a enxergar que falta ao Renato uma análise profunda de suas atitudes e, à diretoria gremista, ação enérgica. O Renato de 2019 virou um prisioneiro da própria certeza e vítima de suas convicções e não houve quem o despertasse de seu berço esplêndido.  O rei está nu, como na fábula infantil, mas tanto Sua Majestade quanto sua corte recusam-se a enxergar o óbvio. E, ao invés de ouvirem a criança que, à margem da estrada grita-lhe expondo a nudez, preferem isolá-la e querer jogar a culpa em terceiros, em faits divers e por aí vai. Assim, de fato, a coisa não tem como resultar.

Sejamos francos – e estamos falando do agora, do que temos (e tínhamos durante o ano) nas mãos.  Não do que deveríamos ter ou do que teremos de fazer para que 2020 não seja outro ano amargo de decepções e promessas não cumpridas – quando um jogador chega, com raras exceções, poucas são as surpresas do que pode ou não pode acontecer, até porque não é verdade que há 50% de chances de dar certou ou errado. A verdade é outra: porque o jogador, antes de ser escolhido e contratado é objeto de estudos, de levantamentos e de observações! Assim, discordamos totalmente em dizer que trazer determinado jogador é “uma aposta”, mas, sim, é uma decisão consciente. E, como decisão consciente, suas consequências têm de ser assumidas por quem a tomou. E isto não está acontecendo no Grêmio.

Por que contratar Tardelli?  Por que insistir com André e Michel, por exemplo, depois de provados insuficientes? Por que nunca se ter aproveitado convenientemente Vizeu? Por que não usar mais amiúde Darlan? E não precisamos aqui repetir a pergunta que sempre povoa a mente dos tricolores. Simples. Porque não há quem diga não. Culpa de quem? Da estátua! Ou melhor, do espírito que ela representa: parece que a homenagem fê-lo imbuir-se de um nefasto espírito de deidade. Não se diz não, não se contesta, aceita-se! Tal ideia, porém, é um arrematado absurdo. E sabem, então, o que falta ao Grêmio de hoje? Quem diga não! Quem diga não à teimosia, às insistências do erro, o guardião da dúvida que sussurre ao ouvido de César “és apenas humano”. Simplesmente, Srs., faltou à diretoria atitude.

Vimos diversas entrevistas que foram odes à soberba e às íntimas convicções. Dizia o técnico que “não trabalhava assim”, que “queria proteger”, que “havia uma nuvem”, “bola aérea”, “gramado sintético”, “vôo dos quero-queros” e assim se repetia, derrota após derrota, mesmo estando claro que, aos argumentos, faltava lógica. Na verdade, todas aquelas expressões, empilhadas, queriam apenas dizer “eu que sei, não me contestem”. E assim, Srs., deixamos passar mais um ano. De nana neném em nana neném, de sombra em sombra, de nuvem em nuvem, fomos perdendo pontos e credibilidade. E o Excelso e Iluminado Líder seguia e segue aferrado a seus equívocos. Está nu, mas não o quer ver.

E querem uma prova a mais de que há coerência e correição no que explanamos acima? O jogo de ontem, domingo, em casa, contra o São Paulo. Bastou uma modificação, ainda que pequena, com o Luciano mais à frente e o Cebolinha caindo ali pelo lado para que a coisa resultasse melhor. E, evidente, a própria opção por não escalar André e Tardelli pesou – e muitíssimo – para o bom segundo tempo que observamos, mesmo que o primeiro tenha-nos remetido para alguns dos piores momentos que vimos nesse segundo semestre. E, sinceramente, a insistência com Michel, mesmo ontem e com Darlan no banco… para quê? Por que não colocar, ontem, Maicon e Darlan e, quando Maicon precisasse ser substituído, aí sim, lançar-se-ia mão de Michel? Ao menos, assim, diminuiriam os perigos que o Michel faz-nos, a contragosto, passar.

O Renato de 2019 tem muito a aprender com o de 2016. Ponto. Menos frases de efeito e mais eficiência no trabalho, Renato. Ontem, por exemplo, tivemos lampejos do Renato de 2016, e, como já dissemos, esse nos serve. E deixa-nos logo refutar a história do “está-se reclamando de barriga cheia” e “estamos no G4”, além de o próprio Renato ter pontuado sua entrevista pós-jogo com declarações tipo “o ano foi bom” e “chave de ouro”. Não, não foi bom, tampouco houve fecho em ouro; na melhor das hipóteses, um ano de cobre. Primeiro, o fato de estarmos no G4, mesmo a despeito das desventuras em série por que passamos no ano corrente, além de ser a obrigação, é uma demonstração de que, se não fossem os erros cometidos pelo técnico e elenco, disputaríamos o título nacional. E uma vaga na libertadores é um magro consolo para as decepções. Em última análise, Srs., Renato é vítima de sua própria vaidade, eis que nos assegurou que conquistaríamos títulos e, assim, como não nos cumpriu a promessa, estamos irritados com ele, mesmo que ontem tenhamos ficados menos chateados e, até certa forma, aliviados (e felizes) com resultado, até porque sempre gostamos de ver o Grêmio ganhar. Insistimos, portanto: queremos o técnico de 2016 e 2017, fazer o time suar nos treinos e em campo, trabalhar sério e firme.

Por fim, duas rápidas pinceladas: uma, há que se repensar urgente esses erros conceituais de “só se pode disputar uma competição por vez” e “tem-se de escolher”. Preocupou-nos a entrevista ontem em que o nosso técnico deu mostras de que continuará nessa toada (a despeito de já haver mostras que a ideia de escolher competições, poupando jogadores, e obter vitórias são falsos cognatos). E, a duas, o brasileiro não pode ser abandonado. É o campeonato nacional mais vistoso, mais importante e que dá mais importância ao clube. Abandoná-lo precocemente como vimos fazendo é um erro de estratégia do clube. E esse é o segundo calcanhar de Aquiles do Grêmio hoje. A postura dos atletas em campo nesses últimos embates (aquele clima do “não temos mais nada a fazer, estamos de férias” que tanto nos enfureceu quarta) é espelhamento da postura laxista do clube em relação ao brasileiro. Simplesmente vergonhoso.

Não vamos, aqui, tecer considerações sobre a igual responsabilidade da diretoria de futebol – haverá outra coluna para e sobre isso -, tampouco a questão das contratações (laterais, goleiro etc.) e a necessária observância e respeito a uma prudência financeira, uma administração responsável, coisas que o clube, sinceramente, não pode abrir mão. Só ficamos satisfeitos em ter confirmada a informação de que haverá reformulação no departamento de futebol, com substituição de dirigentes. Isso, com sinceridade, traz alento aos torcedores.

A hora, então, é já pensar e planejar convenientemente 2020. Tudo indica que haverá renovação. Que o Renato de 2016 e 2017 volte. Que o de 2019 passe a ser uma triste e pálida recordação e perene alerta do que não se pode fazer.

FOTO: LUCAS UEBEL/GREMIO FBPA

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