Uma Reunião no Abundante Escassez

Nos reunimos em sessão nesta última sexta-feira no buteco da abundante escassez, nós da associação da amargura, o colegiado do ódio, a irmandade da infelicidade.

Pedi a palavra enquanto o dono do bar se aproximava com a primeira rodada de cachaça, porque cerveja é coisa para moleques que ainda possuem esperanças.

“Eu odeio a sogra-crente noveleira, eu odeio a cunhada-serpente secadeira” – disse antes de tomar um gole e levantei o brinde “Eu abomino quem diz futebol moderno, e o técnico que veste terno.”

Bati na mesa o copo vazio, limpando a boca com as costas da mão, enquanto apontava para a cintura com a outra “Aviso que estou com a faca à seu dispor, para o primeiro que ousar falar em ‘atleta da confiança do treinador!’” (porque se fosse da confiança do treinador seria caseiro do seu sítio, ou ficava com a senha do banco, e não jogando no time)

O primeiro-secretário rascunhava minhas palavras em um caderno velho, sobre a mesa forrada com plástico descolorido (poderia a mesa por baixo ser mais suja, me perguntei), quando Castor pediu passagem, com sua voz tristonha e disparou “Futebol de resultados é pior” enquanto dava uma cuspida, “…Se o resultado é tudo na vida”.

Foi um momento perigoso, alguém falar da vida antes do álcool ter feito o estrago, por isso gritei “A próxima rodada, deixa que eu pago”

O entusiasmo foi pouco, mesmo assim, até que o Loddhim murmurou rouco que “tem poucas coisas que eu odeio mais do que quem fala em futebol gourmet”. Uma salva de risadas serviu para aliviar o ambiente, completando o efeito da aguardente.

Vilaverde que voltava do WC completou “É a imprensa que inventa estas pra vendê! A mídia é igual ao banheiro aqui do bar, imunda e cheia de desconhecidos querendo te oferecer programa bagaceiro. Mas para mim o asco durante o jogo vem quando grita uma voz asmática que foi uma ‘jogada plástica’”

Alessandra, a garçonete e cafetina da Associação, recolhia garrafas vazias e disse “Tomou ou Deu um chocolate, pra mim é de longe a expressão mais cretina”.

A velha Janaina, esposa do português dono do local, bateu a gaveta da registradora vazia com cara de quem já estava de fogo e largou “Tenho nojo quando dizem que começou a gostar do jogo!”

“Futebol arte”, gritava Rod! “Futebol Moleque, jogo Diferenciado”, respondia Labarte. “Time copeiro, time copeiro!” Maria Lazzarotto gritou em terceiro.

“Calma, calma, muita calmaria” – eu batia a cadeira no chão – “Não vamos esquecer quando dizem Aldeia, se referindo ao time da região!”

Um rugido de aprovação percorreu os descontentes ali reunidos. A cachaça corria solta entre nós os ungidos. “Volante-meia” – acusou Vanisher – “É coisa de nutella, e de guria feia!”

Azevedo lembrou que “aprender a sofrer” era uma expressão de deixar qualquer de nós azedo. “Futebol da bola redonda, Futebol correto, Futebol com o pé” – gritavam, urravam e bebiam até.

Nesta altura já se viam sócios em diversos graus de embriaguez, em pé, sentados e um deitado. “Futebol apoiado, nao consigo engolir o Futebol Apoiado” disse afirmativamente o Valdez.

“Time de Neymar”, comentava Renato Costa, “futebol é coletivo, e até isso chegam a falar, em time de Neymar”.

Foi só lembrar da seleção, começamos a criticar os técnicos. “Tem um que se acha grande coisa, mas só falava em futebol de contenção!” – Disse Felipe. “E craque da base” – lembrou Melo – “Se é da base não é craque, é fase”

Eu sorria por dentro, a reunião estava espetacular. Muitos já estavam desmaiando, outros abraçados dando vazão ao amargor, a vida esquecida. Não importava o cheiro do boteco, nem a conta, nem o amanhã, até que Mengão que estava muito quieto falou “E que tal É gol da Alemanha?”.

Se não estão todos muito bêbados, Mengão apanha (se não corre). É a lei, como pra quem fala “Todo dia é um 7 à 1”, provavelmente morre.

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