UMA HISTÓRIA (IMPROVÁVEL) GREMISTA

Nós recebemos essa história aqui na redação do Hospício e achamos que valia a pena transmiti-la a todos. Não sabemos quem a escreveu, mas a reproduzimos aqui na coluna porque é bonita.

Ela veio na primeira pessoa e assim a deixamos. Vamos a ela:

Em 1989 o Grêmio marcava a sua 47ª participação em Gauchões e, naquele ano, fomos campeões em cima deles, a turma do Aterro. Essa é a história narrada sob um ponto de vista totalmente diferente, de alguém que estava morando no estrangeiro, prestando serviço militar.

O campeonato começara em fevereiro e terminou em 18 de junho de 1989. No entanto, àquela altura não havia internet, não havia tv a cabo e, dessa forma, eu só sabia dos resultados seja quando falava ao telefone com o pai ou com o mano, ou, ainda, nas cartas e tal.

Assim, tive uma ideia: o pai gravava os jogos em fitas-cassete e mandava pelo correio. Cada fita levava de vinte a trinta dias para chegar e era com esse atraso que eu assistia os jogos.

Na base havia um outro brasileiro de nascimento, mas que saíra do Brasil ainda bebê. Era capitão, meu oficial superior, e tomou o hábito de assistir os jogos comigo e tal. Era muito divertido, porque, na mesma fita que havia o jogo, sempre a mãe gravava umas mensagens depois, assim com o pai e outros familiares.

Começou o Gauchão e o Grêmio ganhou do São Paulo de Rio Grande no dia 26 de fevereiro por 2×1, mas eu só assisti esse jogo em fins de março. E o amor Imortal pelo Grêmio fez-me vibrar com os gols de Cuca no final do Primeiro tempo e o gol contra do jogador do São Paulo na metade da segunda etapa (não me lembro do nome do jogador), como se o jogo tivesse acontecendo naquele momento e não tivesse acontecido um mês antes a 11.500 km dali…

Até porque, confesso, a paixão pelo Grêmio sempre me foi muito marcante, viva, pulsante e mais forte que tudo. A identificação com o Grêmio, desde muito cedo, era enorme porque era o time pelo qual meu avô torcia e ser gremista era ser neto dele, coisas indissociáveis, entendem? Nasci e cresci tricolor. Vivo tricolor e morrerei gremista. Enfim, é parte natural e indissociável de mim.

Naquele gauchão, tínhamos como base um time composto por Mazarópi, Alfinete, Luís Eduardo, Astengo, Clausemir, Cuca, Roberto Gaúcho, Zé Roberto, Marcus Vinícius e Jorginho. Mais tarde, Edinho, Assis e Paulo Egídio incorporar-se-iam à equipe. Vibrava com os golos de Marcus Vinicius, Paulo Egídio, Zé Roberto e cia., com as defesas incríveis de Mazarópi e por aí vai. Ganháramos de cinco a zero contra o Santa Cruz, com gols de Jorginho, Marcus Vinícius (2), Roberto Gaúcho e Cuca, e eu vibrei muito com os gols, em que pese o jogo ter acontecido em 1/03 e eu só o ter assistido acho que em 12 de abril, dia que era o aniversário da Mãe e os jogos do Grêmio eram uma maneira de estar mais perto da família e do Rio Grande. O terceiro jogo, perdemos. E eu passei o dia mal-humorado por algo que tinha acontecido trinta dias antes!

Minhas semanas eram ficar esperando as fitas-cassete (VHS) que eram enviadas pelos correios. E o pessoal da base começou a tomar conhecimento delas. Passou a ser um motivo de reunião de todos. O capitão permitiu que assistíssemos no Salão de Recreação. Vários assistíamos aos jogos. Alguns gremistas surgiram aí, porque os viventes lá adoram futebol, embora seu campeonato àquela altura fosse bastante ruim. O pai foi obrigado a mandar várias camisas do Grêmio para os meus companheiros de Batalhão.

Nosso batalhão montou um time de futebol e nosso uniforme? Plasmado no uniforme gremista, é claro. Eu era um excelente beque, como dizíamos àquela altura, por mim passava ou a bola ou o jogador, nunca os dois. Não te fresqueia, tchê! Nome do nosso time? Grêmio Ahava. Vencemos TODAS as partidas que disputamos. Simples assim. Éramos todos fervorosos gremistas isso tudo por conta do meu (confesso) salutar fanatismo pelo Grêmio.

Naturalmente, com o tempo, começamos a nos chamar pelos nomes dos jogadores do Grêmio. Por exemplo, o S, nosso goleiro, estrategista de primeira e nosso primeiro Sargento, só o chamávamos Mazarópi. Y, excelente atirador de elite, era o Alfinete (até porque ele era magro e mirrado, cara de sofrido, tal e qual o nosso jogador Alfinete) e por aí vai. Chegamos a sair em um jornal de boa circulação justamente por causa dessas peculiaridades.

A FGF era esculhambada desde aquela época. Muito antes, até. E as regras variáveis da competição fizeram que ela fosse decidida em um hexagonal final (depois de haver uma fase de turno e returno que terminou em quadrangulares…. é, gauchão nunca foi para amadores). E as arbitragens? Ah…

Grêmio, inter, Glória, Passo Fundo, Caxias e Pelotas foram os classificados, com o Grêmio em primeiro. Entretanto, no primeiro jogo, contra o passo fundo, empatáramos no tempo regulamentar sem gols e, nas penalidades, perdemos de 4-3. No segundo jogo, empatamos com o Caxias(1-1) e perdemos novamente nos penais. A verdade é que jogamos muito mal essas partidas. E isso deixou nossa torcida gremista da Base muito preocupada. Temíamos não nos classificar, até porque o lado mau da força, os vermelhos, estavam bem. E os jornais que o pai mandava-me teciam loas infinitas à capinchada.

E eis que vieram duas bonitas vitórias contra o Pelotas (4-0) e contra o Glória (4-1). Embora o jogo do Pelotas tenha acontecido antes, nós o assistimos depois, porque as fitas chegaram trocadas, coisas de correios… Lembro-me de um gol do Assis que foi uma pintura. E Assis marcara duas vezes nessa partida contra o Glória.

Aí veio o Gre-nal. Os dois times enfrentaram-se em 28 de maio, no Beira-Rio, mas nós só assistimos a partida em 30 de junho, por aí… Ganhamos maiusculamente por 3-1, com gols de Jandir, Kita e Paulo Egídio! Que festa fizemos… Lembrem-se: eu havia doutrinado todo mundo sobre a rivalidade. Fizera mais. Nós tínhamos operações contra posições de inimigos, operações de desmonte de células que punham a fronteira norte em perigo e tal. Eu passara a usar como codinome dos alvos os nomes dos jogadores do binter. Assim, um quartel-general/base, eu invariavelmente punha beira-rio no Mapa. E os alvos militares para prisão ou coisa que o valha eram 10, alcunhei-os de Taffarel, Nórton, Casemiro, Norberto, Luís Carlos, Flôres, Ado, Nílson e Hêyder. O Décimo? Ele traíra um grupo e bandeara-se ao outro lado. Naturalmente lhe dei o apelido de Bonamigo. Então, enquanto assistíamos o jogo, ouvíamos os nomes e dava-nos um certo asco, sem exagero. Em campo, o jogo foi bom. Envolvemos o adversário com o nosso toque de bola e não lhes criamos espaços. A vitória foi mais que justa.

E assim continuávamos: trabalhando muito, saindo nas folgas (todos jovens, todos cheios de vida), todos assistindo os jogos do Grêmio, partidas que aconteciam semanas antes, e a minha unidade sempre jogando bola, fardados como gremistas. Quinze inseparáveis. E trabalhando pela segurança de nossas famílias, de nossos amigos e irmãos.

Em 21de julho de 1989, saímos em missão. Foi muito dura. Taffarel, Nórton, Casemiro, Norberto e Bonamigo tinham sido vistos em determinada área. Recebêramos a informação que, averiguada (era a minha função primordial, recolher informações, analisá-las, montar estratégias etc), confirmou-se verdadeira. Estávamos atrás desses alvos, maiores e importantes, os cinco que restavam. Só que sabíamos que essa missão seria muito difícil. Deixamos a base. Recordo que, no veículo, conversávamos sobre a chegada das próximas fitas, afinal, estava ansioso por aquela que conteria o Gre-nal de volta, no Olímpico. Partida que tinha acontecido em 18 de junho de 1989 e que ainda não havíamos recebido. Fizemos apostas, conjecturas, ficamos pegando no pé de D**, que apelidáramos Marcos Vinícius, porque ele tinha arrumado uma namorada feia feito a necessidade. E, desta maneira, seguimos rumo à missão.

Vou poupá-los da descrição do combate, do que aconteceu etc., daquele dia tão sofrido; só posso dizer que fomos bem sucedidos em relação aos cinco alvos, cabeças de suas células, e outros tantos inimigos. No entanto, perdemos dois amigos aquele dia. S, apelidado Mazarópi, e Y, apelidado Alfinete, foram atingidos e vieram a falecer, Y na hora. S**, horas depois, na sala de cirurgia, sem nunca ter recobrado a consciência. Maldita guerra. Maldita estupidez dos homens.

Quando isso tudo passou, na noite seguinte, estranho desenrolar das coisas, chegou pelo correio a fita com o jogo do Grêmio. Não queríamos assistir. Faltava gente ali conosco. Só viemos a ver essa fita 30 dias após o enterro dos nossos amigos, já em agosto. Assistimos todos juntos, às lágrimas, e o empate em zero a zero no tempo normal foi bem um reflexo de nosso sentimento. Assistimos os pênaltis, celebramos a vitória (4-3), mas com um gosto amargo. Olha só, na minha cabeça, a vitória nos custou caro!

E o que nos ajudou a superar o que passáramos? Além da fé, do apoio da família e da certeza de que estávamos certos e com a Justiça ao nosso lado, o amor pelo Grêmio, porque sempre ficou associado aos bons momentos que passara com aqueles amigos. Claro que, para mim, o Grêmio já fazia parte de mim, desde sempre. Para os outros todos, era algo que nasceu da amizade mútua, daquela camaradagem castrense, da certeza que vem da juventude que se acha Imortal e indene, que se crê invulnerável. Então, o Grêmio passou a ser o símbolo da nossa amizade. Ou seja, para mim, mais um ponto positivo associado ao meu Imortal Tricolor.

Daquela unidade de 15, inquebrantável coesão se formou. Os contatos perduraram, gremistas continuaram todos. Hoje, todos somos adultos com idades entre 47 e 49 anos. Todos seguem torcendo pelo Grêmio, vibrando, amando e emocionando-se com os feitos do Imortal. Por isso, para nós, cada vitória do Grêmio em um Gre-nal é tão importante: porque, para nós, cada vitória do Grêmio em um Gre-nal é a vitória do bem sobre o mal.

*Texto enviado via whatsapp, autor não se identificou.

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