SER GREMISTA

A copa está acabando.

Enquanto escrevo essas linhas, faltam três horas para a partida final entre França e Croácia, mas, paradoxalmente, o que está mais me marcando (já que o Pastor Tite e seus blue caps não nos permitiu a farra entre amigos por razões óbvias, se bem que estamos todos aqui bebendo à la victoire de la France), é que os campeonatos em que participamos voltam a partir de quarta-feira para nós.

E falávamos da final que acontecerá(ia) daqui a pouco, mas a conversa desviou-se para o Grêmio e para nossas reminiscências. E eis que fiquei saudosista, nostálgico lembrando do meu avô que viu a última partida do Lara no estádio e das vezes que, guri, acompanhado dele e do meu pai, nas sociais do Olímpico, assisti a cenas marcantes e que as lembro detalhe a detalhe, como se as tivesse vivendo novamente. Então decidi dividir essas reminiscências com vocês.

Minha família é gremista. Sou-o dos quatro costados, literalmente. Meus avós eram gremistas, meus pais também. Poucos primos casaram-se com pessoas que não torciam pelo Grêmio… raro privilégio, eu sei. Só que isso nos deu, em família, outra perspectiva e não era raro sairmos de Bagé, em caravana, a família toda, para um final de semana na capital e, para nós, o ponto alto era o jogo no domingo no qual íamos todos, cerca de vinte e cinco pessoas, torcer pelo Grêmio. Isso cria laços inimagináveis.

A nostalgia do que vi e senti foi indescritível.

Lembro-me da primeira vez que fui ao Olímpico. Tinha cinco anos. Lembro-me perfeitamente da ocasião. Estávamos em Porto Alegre em setembro e, depois do feriado, dia 20, ainda por lá estávamos, quando, na manhã do dia 25, lembro que meu pai disse-me que íamos ao jogo do Grêmio e que meu avô, sogro dele, tinha comprado ingressos. Fiquei numa excitação só! Imaginem só! E era uma final do gauchão daquele ano. Claro que só fui tomar ciência de que era final do campeonato anos mais tarde e, naquele dia, o que me assaltou foi a euforia de assistir “um jogo na casa do Grêmio”.

Saímos de nossa casa em Porto Alegre de carro e chegamos ao Olímpico que me pareceu gigantesco, algo de outro planeta. Havia muita gente, um barulho inimaginável, com cantos a todo lado e muita gente churrasqueando no entorno.

O jogo começou. Claro que não me lembro de muitos detalhes da partida em si. Sei deles depois. Lembro-me de uma fúria enorme do meu avô em determinado momento, não porque Tarciso perdera o pênalti, mas porque um senhorzinho nas sociais, um justino da época, não parava de cornetear o time e dizia que iriamos passar vergonha. No entanto, eu tinha os olhos vidrados no campo para não perder um lance sequer. Parecia-me mágico ver ali, quase ao alcance das mãos, aqueles jogadores dos quais ouvia meu pai e avô conversarem e discutirem. A bola parecia mágica nos pés daqueles heróis tricolores e quando havia faltas contra nós (e houve muitas), eu gritava “palhaço”, que era o máximo xingamento que meus severos pais deixavam-me dizer. Palavrões nem pensar! Eu só ouvia a tonitruante voz do meu avô lançar alguns vitupérios em iídiche ou russo (nunca palavrões, frise-se), e eu morria de rir, porque os repetia (e ficou marcado, faço isso até hoje durante os jogos) sob os olhares divertidos os mais velhos.

Até que o André Catimba marcou o gol. Foi ao final do primeiro tempo. E aí, meus amigos, virou uma coisa feérica, mágica e transcendental. Meu avô jogava-me para cima enquanto meu pai abraçava-se à minha mãe e ao meu tio. Foi aquela explosão enorme, aquele lindo momento em que a energia positiva da vitória submergiu a todos nós. E eu, emocionado, porque meu avô disse assim para mim: “esse gol é para ti, foi para ti”, e eu acreditei muito porque o André Catimba viera para ali perto da onde estávamos comemorar o gol e, na minha inocência, achei que ele estava apontando para mim. Meu avô era capaz de muita coisa (como mandar pendurar o retrato da minha vó na fachada da prefeitura de Bagé em um aniversário dela), logo, mandar alguém fazer um gol por mim seria fichinha.

Eu me lembro que, no segundo tempo, a confusão em campo começou ainda com a bola rolando, com os vermelhos sendo violentos (sempre) e desleais (característica atávica dos mesmos). Até que o campo foi invadido. E o pau cantou. Era um bate-aqui-que-tu-apanhas-lá impressionante. Lembro-me de um jogador deles apanhando mais que boi ladrão. Anos depois vim a descobrir que era o Escurinho. Os colorados deixaram o campo, foi uma balbúrdia só… Mas nós, torcedores, nem ligávamos porque estávamos celebrando a vitória cantando repetidamente o hino do Grêmio até a hora da entrega da taça.

Depois desse jogo, andava eu para todo lado com a camisa do Grêmio, recusava-me a tirar o manto. Substituía uma por outra. Ia para a escola com a camisa do Grêmio por baixo do uniforme. Até hoje, aos 46, por exemplo, não deixo de levar, quando em viagens, várias camisas do Grêmio e, em diversas cidades pelo planeta, já tive o orgulho de ver pessoas reconhecendo e falando do Grêmio que, em verdade, é um digno e enorme representante das façanhas gaúchas e brasileiras pelo mundo.

Tenho muitas outras histórias em estádio, sempre em família e com amigos, como na nossa primeira libertadores, em que assisti os jogos em Montevidéu e em Porto Alegre, nas quartas de final contra o Palmeiras em 95, jogo contra a Portuguesa em 96, nos Aflitos em 2005… Histórias que só mostram que minha alma é indelevelmente tricolor, como todas a nossas devem ser.

É nosso dever levar esse orgulho e defender esse privilégio de sermos gremistas em qualquer lugar do planeta, a todo tempo e em qualquer lugar. Sim, meus amigos, ser gremista é um privilégio. Ser gremista é uma honra que nunca quero deixar de sentir e que transmitirei às futuras gerações Volodianas. Sempre, de alma Tricolor e imortal, pelo e para o Grêmio. Exagero? Não. Loucura? Sim! Sou louco… pelo Grêmio.

2 comentários em “SER GREMISTA

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