PELÉ, O MANÉ E O GARNIZÉ

Nasci em 1985. Um dia de inverno, que pra temperar-me com crueldade, iniciou-se com sol e calorento e findou com um temporal e frio. A psiquiatria justifica as intempéries e variações bruscas de humor de um ser humano baseadas na estabilidade ou não do dia em que cada um nasceu. E em meu caso, acho que não há fuga a essa regra.
Não preciso dizer que em 1985 tudo era absolutamente diferente. Nada das tecnologias avançadas de hoje, e em nosso reduto em meio à mata, sequer luz elétrica existia.
Nasci já campeão Brasileiro, da Libertadores, do Mundo. E não sabíamos da dimensão disso. Nem eu, o pequeno serelepe que infernizava a todos com sua hiperatividade, nem meus pais, parentes, amigos. Não sabiam da importância de ser campeão do Mundo, especialmente enfrentando um Hamburgo arrogante, cujo treinador recusara o cumprimento de Valdir Espinosa.
Iniciei pelo meu nascimento pra descrever um pouco do que ouço de intelectuais e entendidos em futebol, e que não vi pessoalmente.
Primeira sentença da lista: “Pelé jamais teria sido Pelé se não houvesse Garrincha”.
Não os vi jogar. Me baseio em depoimentos de quem os viu. E revendo videos, de fato, vejo um Garrincha tecnicamente igual ou superior a Pelé. Partiu cedo, vítima do alcoolismo…não teve psicológico pra ser melhor do que Pelé.
Pois é.
Vejo apelações diárias do reserva mais bem pago do país pra se tornar um ídolo. A cópia número 8.472 da breve história vermelha. Tentaram a fórceps arrancar um mito, uma lenda…e a rigor, o que fizeram foi ridicularizar um cidadão que poderia ter sido um jogador razoável, se não concentrasse sua atenção em ser tiete vermelha e destilar seu ódio de mal amado no Grêmio.
O resultado? Lembre-me quem tiver melhor memória dos títulos importantes ganhos por ele sobre o Grêmio que tanto odiou ao longo da frustrada carreira. Ou melhor, lembrem-me de uma eliminação de competição importante nossa perante seu exuberante futebol.
Claro que não lembraram. Preciso citar nossos ídolos e o que ganharam? É importante explicar a diferença de tratamento aos respectivos ídolos?
Vamos falar de grandeza? Falaremos sobre pioneirismo e quantidade de taças? Não…como só houve Pelé graças a Garrincha, só existe o Grêmio graças a todos os que sempre fizeram o possível pra que cada sonho resultasse numa dourada realidade.
Jogadores, dirigentes, funcionários em geral, torcida, os loucos que enfrentam chuva, frio, sol de rachar e horários esdrúxulos às vezes…todos sempre buscaram um mesmo objetivo ignorando uma futura idolatria, e principalmente, focando em si próprio, jamais no ex-tradicional-rival…o consenso sempre foi o clube, e o resultado são ídolos a baloque, taças e história pra contar. Que vieram ao natural, diferentemente do outro lado.
Copião de tudo, o clube do aterro até tentou, e foram inúmeros plágios. Mas uma coisa jamais poderá ser forjada: a grandeza.
Se temos ídolos, se somos multicampeões, se somos pioneiros em praticamente tudo, é decorrência de nossos méritos.
Garrincha foi fundamental pra que Pelé fosse Pelé, e jamais exigiu reconhecimento por isso. Jamais se esforçou pra ser melhor que Pelé, pelo contrário, o ajudou para o bem comum, à época uma seleção brasileira ainda emergente.
O fracasso da figura que citei se deve principalmente ao fato de viver em função do rival. Hoje amarga uma reserva e vai encerrar a carreira levando os últimos níqueis do clube cujos torcedores o consideram “ídolo”. E só eles mesmos pensam assim.
Mané Garrincha e Garnizé. Dois talentos que tinham tudo pra dar certo. Duas histórias diferentes, dois caráteres diferentes, dois tamanhos diferentes, uma coisa em comum. Ambos morreram pela boca.
Um porque não sabia do tamanho do mal que estava fazendo a si próprio. Outro porque não sabia do tamanho do inimigo.
Cada um com sua grandeza. Em terreiro de galo de raça, garnizé de fala fina não se cria.

2 comentários em “PELÉ, O MANÉ E O GARNIZÉ

  • 10 de abril de 2019 em 12:58
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    Obrigado amigo!
    Saudações Tricolores!

    Resposta
  • 9 de abril de 2019 em 08:36
    Permalink

    Que baita texto, parabéns para quem o escreveu, belo punho!
    Também nasci em outubro de 85,minha mãe conta que meu vô o Alexandre Mosconi, me pegou no colo e disse tu já és campeão do mundo!
    Saudações tricolores e da-lhe Grêmio!

    Resposta

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