Os melhores cronistas esportivos e escritores do futebol mundial e porque você deve lê-los

Nos próximos artigos prepare-se para conhecer o que há de melhor no mundo produzindo no momento, em publicações dos mais variados formatos.

Os dias em que escrever sobre futebol envolviam apenas uma simples descrição do placar, alguns momentos decisivos de um jogo e uma série de chavões bem desgastados passaram. Hoje se pode dizer que estamos na era de ouro da crônica esportiva (up Mapituba ao menos). Desde blogs com aquele humor sarcástico, passando por textos longos com um toque de lirismo, até livros com escrita meticulosa e fundamentados fortemente em apurada pesquisa, existe um manancial volumoso de crônica de alta qualidade sobre o esporte. Alguns vão te deixar emocionado, outros fascinado. Muitos vão te fazer sorrir ou mesmo gargalhar (cuidado se estiver lendo em um local público), e teremos aqueles que te farão ver o jogo sob uma nova luz.

Meu objetivo aqui é dividir com vocês alguns dos melhores textos do mundo, para que percebam ainda melhor o quão atrasada e simplória é a crônica esportiva gaúcha, independente de ser escrita pela IVI ou por outros jornalistas sem má intenção. Posso adiantar que uns terão mais simpatia por um estilo, outros fecharão integralmente com o oposto. Muitos apreciarão todos. Mas em comum todos vocês vão concluir que a crônica gaúcha em especial (e também a brasileira em grande parte), anda de lado desde os anos 70, tanto em forma, quanto em conteúdo.

Nos próximos artigos prepare-se para conhecer o que há de melhor no mundo produzindo no momento, em publicações dos mais variados formatos.

1. David Peace
David Peace é um sujeito de visão singular e um dos mais surpreendentes escritores vivos do futebol. Seu trabalho mais conhecido é MALDITO FUTEBOL CLUBE (The Damned United), uma comédia de humor negro que atingiu grande repercussão graças ao filme (produção da BBC e Columbia, que era disponível no NETFLIX brasileiro até o fim do ano passado https://pt.wikipedia.org/wiki/The_Damned_United). É uma das raras histórias recentes sobre futebol que você pode ler o livro, assistir a peça de teatro (se estiver na Inglaterra), e ver o filme… E curiosamente David Peace torce para o clube rival do Leeds United, o Huddersfield Town. Apesar do grande sucesso do filme, a maior e mais singular proeza de David como escritor é seu livro RED OR DEAD (Vermelho ou Morto, ainda sem tradução para o português). Neste livro, Peace escreve sobre como seria o pensamento interno do grande manager do Liverpool, Bill Shankly, durante o decorrer de sua carreira e subsequente aposentadoria. O livro é escrito em um estilo hipnótico, quase um poema épico e não uma novela tradicional. Ele detalha cada jogo, cada jogador, cada gol pela ótica imaginária de Shankly pelos 15 anos de seu trabalho no Liverpool. Não se trata de um livro de fácil leitura, mas mostra toda a qualidade que um grande escritor pode atingir quando ambiciona escrever sobre o futebol com paixão e profundidade.

Trechos de David Peace

‘E Bill viu a tristeza. As feridas da tristeza. E Bill viu a lesão. As feridas da lesão. Bill viu as feridas. E Bill sentiu o medo. Suas feridas e seus medos. E Bill sorriu. E Bill falou, Sempre haverá momentos quando seremos batidos, rapazes. Sempre haverá momentos em que vamos perder. Mas a coisa importante é o que tiramos desta derrota, o que aprendemos quando perdemos, rapazes. Porque nós sempre poderemos aprender mais de uma derrota do que de uma vitória. Lembrem-se disto, rapazes. Lembrem-se disto. E aprendam isto, rapazes.’
David Peace, Red or Dead

‘Qual é o significado deste jogo. Equipes. O equilíbrio e o conjunto. Não o indivíduo, não o superstar. Porque isto é um jogo de times, um esporte coletivo, ou não é, Don? Não é? É sobre como você joga como equipe. Não como um indivíduo. Com um bom jogo aqui e um bom jogo lá. É sobre equipe. Semana entra, semana sai. Jogo após jogo, partida após partida. Como a equipe joga.’
David Peace, Red or Dead

‘O cheiro de sangue. O cheiro de suor. O cheiro das lágrimas. O cheiro de Algipan (tipo Gelol). Você quer sentir estes cheiros pelo resto de sua vida.’
David Peace, The Damned Utd

‘Ele uma vez me disse, ao invés de marcar trinta gols em uma temporada, por que você não marca vinte e cinco e ajuda alguém mais a marcar quinze? Desta forma o time fica com dez gols a mais.’
David Peace, The Damned Utd

‘Este ascenso é satisfatório. Sim, o Liverpool Football Club está de volta para a Primeira Divisão. De volta na Liga Maior. Mas isto é apenas o lugar ao qual pertence o Liverpool Football Club. Apenas onde ele deveria ter estado o tempo todo. Na Primeira Divisão, na Liga Maior. Então na próxima vez em que vocês vierem mostrando agradinhos, trazendo presentes, vai ser porque nós vencemos a Primeira Divisão. E a FA Cup. E a Taça da Europa. E todas as taças que existirem para serem conquistadas. Porque apenas isto será satisfatório, senhores. Quando o Liverpool Football Club tiver ganhado tudo que há para ganhar, quando o Liverpool Football Club tiver conquistado o MUNDO. Somente isto terá sido o suficiente.’
David Peace, Red or Dead

Este é David Peace, nosso primeiro autor.

2 comentários em “Os melhores cronistas esportivos e escritores do futebol mundial e porque você deve lê-los

  • Pingback:Do Hospício Tricolor - casadoimortal

  • 16 de abril de 2018 em 16:32
    Permalink

    Quando se trata de “equipe” dar assistências” no meu linguajar falo “pifar”, lembro das entrevistas de apresentação de centro-avantes no Brasil, onde a pergunta oficial é: – Quantos gols promete marcar?

    Resposta

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