O MILAGRE DO SOL E O PUNHADO DE PÁGINAS DOBRADAS

Aquela manhã iniciou-se chuvosa na abafada Capão da Canoa…a vista inicial da janela da pousada era melancólica. Os pingos caindo numa deserta piscina e nas verdejantes folhas dos arbustos e árvores estrategicamente posicionados junto às janelas dos quartos, pareciam dizer: “azar o seu! Podia ter ficado em casa!” e uns 5 ou 6 emojis com lágrimas de rir.
Mas de fato, ele não acordou a fim de conversar com ninguém naquele dia. Aliás, é típico de sua pessoa. Muda de humor a cada diástole cardíaca, e às vezes se isola do mundo pra refletir, observar os movimentos ao seu redor, ou simplesmente evitar que alguém o aborreça.
Ainda com o café da manhã atravessado, passou a mão no jornal. Só havia esse, um singelo boneco de ventríloquo da IVI, que domina boa parte das páginas finais (e justo pra ele, que tem o maldito hábito de ler de trás pra frente). Como previsto, exaltações múltiplas ao clube de estimação, um punhado de terra arrasada no Grande da Capital, colunas vazias procurando o que restou de crise pra criar pra um lado e de glórias da vaga conquistada a custo de 17 pontos de adversários pra outro…e só. Como quase sempre.
Pegou a rir sozinho na recepção. Subitamente, e incrivelmente, seu humor melhorou! Começou a conversar com argentinos, uruguaios, todos que ali passavam. O olhavam com desconfiança (natural), mas ele não estava nem aí! Juntou-se aos cunhados no carteado, e como que por milagre, cessou a chuva e saiu aquele sol!
“Vamos para a praia, hoje estou animado!”, e ao partir, olhou com desdém aquele punhado de folhas dobradas uma sobre a outra e murmurou “sim, há coisa pior que pegar chuva na praia…mas por ora, que bom que o sol saiu! Não precisarei mais do carteado com os cunhados nem desse lixo impresso pra me distrair!!”
Partiu sorridente. Se isso é o mais vendido jornal do estado, ele não é tão burro afinal! Pelo contrário, ele sentiu naquele momento que pertence ao seleto grupo que não cai na bobagem de deixar-se manipular pela IVI. Que moral, não?
Ah, pelo caminho lembrou que havia esquecido o óculos escuro. Passou mais duas vezes pelo insosso amontoado de papéis impressos. Na segunda vez, sorriu com o mesmo desdém e murmurou inconscientemente: “otários!”.
Partiu, rumo à beira mar. E foi a melhor manhã de todo seu veraneio!

Argentino

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