Nem tudo se pode esquecer

Não estou sendo cruel.

O caso foi policial, envolvendo informações sobre uma alta esfera na política que, como podem imaginar, era corrupta. E o sujeito simplesmente sabia muito, sabia demais para seu próprio bem e segurança. Algo tinha que ser feito pelos bandidos com os quais se envolvera, para remediar o problema. Era imperdoável.

Nem viu o que lhe aconteceu.

Apenas ouviu o disparo e a bala já foi penetrando por trás da sua cabeça, perfurando o crânio, passando pelo hemisfério direito do cérebro.

Laboriosamente, como se fosse um cirurgião, o projétil foi desviando das grandes artérias, evitando o tálamo, passando ao lado do tronco central. Seguiu assim bailando entre as zonas vitais, até sair pelo topo da testa.

Ao longo de sua trajetória apagou as principais memórias, como quem era, o que fazia, quem amava… Deletou quem eram seus amigos, sua comida predileta e o nome do cachorro. Na verdade até as menos importantes e as insignificantes como qual lado da cama preferia ou se dormia em viagens de avião.

Para seu azar o ferimento não foi fatal, gravíssimo mas insuficiente para dar-lhe o alívio da morte ou torná-lo um vegetal.

Acordou.

Não estou sendo cruel. Se acha que sim, se na sua opinião desejar a morte como boa sorte é cruel para nosso infeliz protagonista, te digo que houve crueldade muito maior: tudo que preenchia sua personalidade se foi mas restou-lhe uma lembrança, a infeliz circunstância de não ter nascido gremista.

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