Lembranças in Blue, Black and White

Meu pai é um sujeito de outros tempos, mas que poderia ser de outro planeta.

A minha família paterna é originária de Bagé, um bando de estancieiros fronteiriços loucos. Não estou exagerando! Contam que meu bisavô, “vovô bibi”, certa vez arrancou a orelha de uma mula à dentadas, porque o animal se negava a andar… E por ai vai.

Meu avô e minha avó foram os primeiros a se aventurarem na cidade, na capital. Provavelmente fugiram do resto da família. E em Porto Alegre, num casarão em Petrópolis, tiveram oito filhos! Era aquela vida de missa, pedir a benção e apanhar de vara.

Meu pai, nascido durante a 2a Guerra Mundial e vindo deste ambiente, sempre foi um homem contido na demonstração de seus sentimentos. Nunca conseguiu dizer para um filho coisas que eu digo pros meus, como “eu te amo”. Não que não demonstrasse carinho, nem elogiasse, mas era sempre um pouco fora de tom. Parecia como se enxergasse os tempos mais modernos, mas estivesse sempre esperando ser pego pelo meu avô sendo “molenga sentimental” com os filhos, a qualquer momento.

Então os tapinhas nas costas eram sempre rápidos e um pouco mais fortes que o desejável para um menino magrela, que ficava na dúvida se tinha sido incentivado ou levado uma pancada. Os abraços eram só nas brincadeiras de luta, quando eu ou meu irmão invariavelmente acabavamos chorando e ainda ouviamos um discurso sobre deixar de ser maria-derretida. Mas a gente sabia que ele estava tentando, do jeito que podia lá do seu planeta.

Conto isso para dizer que hoje sei do esforço e dos sacrifícios que fez por amor aos filhos. Por exemplo, lembro da primeira vez que fui com ele ao Estádio Olimpico.

Foi na decisão do gauchão de 1977, quando eu recém tinha completado 8 anos em final de julho. Cheguei no estádio sem saber exatamente o que era e o que faríamos. Naquela época, jovem leitor, o pai chamava e você ia sem maiores perguntas… bem igualzinho hoje né? SQN

Pois fui. Pouca gente usava a camiseta do clube então, era roupa de passeio esporte. Nas sociais, onde fomos, só havia homens e praticamente todos velhos (ou pra mim pareceram velhos… e gordos). Digamos que o cenário estava mais pra público de corridas de cavalo do que para o estádio de hoje em dia.

Quando sentamos foi no meio de vários sujeitos que eram amigos/conhecidos do meu pai. Era um grupo de dez ou quinze pessoas que assistiam juntos aos jogos e, pasmem, na cadeira metalica de cada um havia uma placa de aluminio com o seu nome pregada no encosto. Traziam radinhos de pilha, sentavam em almofadas colocadas no assento metalico das cadeiras e bebiam “Natu Nobilis”, que um vendedor vestido de garçom com gravatinha borboleta e tudo apregoava. Outro planeta mesmo.

Pois meu pai havia comprado uma cadeira só pra mim (pois é, na época você “comprava” a cadeira e depois pagava anualmente a manutenção).

Vocês podem não ter ideia do que isto representa, mas foi um grande investimento dele. Naquele momento, lembro bem, a grana não andava frouxa na família.

Durante o jogo comi pipoca, picolé e tudo mais que passava. Lembro dos velhos corneteando que “este Tarciso não guarda posição, nunca está na ponta direita onde deveria”.

O jogo em si é nebuloso na minha memória. Recordo “flashes”, como a torcida invadindo o campo antes do final, a dúvida de todos se continuaria o jogo ou não e a comemoração louca do André Catimba se estoporando de costas no chão após seu gol.

Mas o que lembro mesmo é meu pai me pegando no colo, me abraçando, pulando comigo e gritando “ele é pé-quente, o meu filho é pé-quente!” enquanto os demais só gritavam um simples “gooooollll”.

Ali com 8 anos senti pela primeira vez a importância que eu tinha para meu pai. Como sei que meus filhos são para mim agora.

É um momento inesquecível, que reúne o amor de pais e filhos, futebol e o Grêmio. Certamente você também tem algo semelhante para contar.

São estas coisas, estes momentos em que partilhamos memórias afetivas de nossas famílias individuais entrelaçadas com nosso clube, que nos tornam uma grande e imortal família azul, preto e branco.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

%d blogueiros gostam disto: