HISTÓRIAS DE GRE-NAIS: COMO NOS ROUBARAM O GAUCHÃO DE 91

Não há no mundo clássico mais disputado que o Gre-nal.

Não há qualquer controvérsia em tal afirmação, sendo uma das poucas concordâncias entre gremistas e o outro lado. Com efeito, o Gre-nal, a cada ano que passa, consegue polarizar ainda mais os dois lados, despertar mais paixões e, ao mesmo tempo, libertar os isentos vermelhos da imprensa gaúcha de seus armários duplos, de isentos (justamente) e de vermelhos.

Não é sobre a IVI, no entanto, que queremos falar hoje, mas de reminiscências, de histórias antigas de Gre-nais passados, histórias que nos mostram ou que nos fazem relembrar o quão entranhadamente gremistas somos. Não é necessariamente aquele Gre-nal mais famoso (como o dos 5×0), ou aquele que mostra o fim de uma era (como o último Gre-nal do Olímpico, em que estivemos presentes, um 0x0 que ficou marcado pela violência injustificada com que a Brigada agiu do lado de fora de nossa casa em cima dos torcedores gremistas). São os Gre-nais que, por vezes, trazem-nos memórias pessoais ou que nos terminaram por ser marcantes.

Queremos, assim, falar de três Gre-nais de 1991. E por que falarmos desses acontecimentos de 27 anos atrás? Porque temos histórias pessoais em três Gre-nais que aconteceram naquele ano. E porque, demais disso, aquele campeonato gaúcho prova sobejamente o quão vermelha é, há muito tempo, a FGF. E 1991 inicia o reinado maléfico de Perondi. Só aí já poderíamos parar, porquanto feita a prova da alegação de parcialidade da federação gaúcha, mas queremos esmiuçar o relato.

O 71o Gauchão começou com polêmica, eis que o número de participantes subira para 20, consequência direta da campanha de Hoffmeister, então presidente da FGF, para fazer o seu sucessor, o malfadado Emídio Perondi, colorado dos quatro-costados. O longo e inchado gauchão (entre agosto e dezembro de 1991) marcaria, caso o Grêmio conquistasse-o, um heptacampeonato tricolor (é interessante o quão fraca é a memória da IVI. Há vários exemplos de heptas e hexas gremistas ao longo do gauchão, mas eles nunca se recordam, não é?). O Grêmio levou aquela competição a sério e queria ganhá-la a qualquer custo.

Uma curiosidade: em Setembro de 1991, Renato Portaluppi voltou ao time do Grêmio. Jogador do Botafogo, Renato disputava com o time carioca a taça Guanabara e era a esperança alvinegra para tal. O jogador, no entanto, aceitou a proposta gremista e um gordo salário para um contrato inicialmente até dezembro de 1991, três meses apenas.

Ao final, o Grêmio ganhou o grupo B e o sci, o A. Enfrentar-se-iam, portanto, nas finais. O regulamento previa duas partidas. Uma no Olímpico e a de volta no aterro. O Gauchão de 1991, porém, terminou em uma disputa de quatro Gre-nais, sendo três no campo e um, o pior deles, no tribunal, onde o TJD mostrou-se um braço vermelho, totalmente subjugado por Perondi que chefiava a federação tal e qual um capo mafioso. O fato é que o inter não ganhava um campeonato gaúcho desde 1984 e os colorados eram corneteados impiedosamente por causa disso. Perondi assumira dizendo que isso terminaria naquele ano. Prometeu e cumpriu.

Perondi foi presidente da FGF por 13 anos. De 1991 a 2004. A ele sucedeu Novelletto, que lá já está há 14. Se somarmos a isso o período de Rubens Hoffmeister, são mais de 30 anos da mesma camarilha rubrófila com as rédeas da federação na mão!

Voltemos às finais, contudo. No dia 01 de dezembro de 1991, o Olímpico lotado recebeu o primeiro jogo da final. Fomos àquela partida meu irmão, eu e dois amigos. Chegáramos cedo porque queríamos comprar ingresso e a fila, mais comprida do que dia de jejum, serpenteava confusa e, verdadeiramente, não sabíamos se conseguiríamos adquirir as entradas. Terminei por colocar em prática toda minha cara-de-pau e cheguei perto a um casal de adolescentes que, apesar de muito próximos à bilheteria, um dos primeiros à fila, estavam mais interessados a explorarem as respectivas bocas do que outra coisa e propus-lhes pagar seus ingressos caso eles comprassem quatro para mim. Fizeram-no de bom grado e ainda morri no ingresso de um dos meus amigos que, convenientemente, esquecera seu dinheiro. Ele nunca me pagou aquele empréstimo, diga-se de passagem. Calculem só os juros correndo desde dezembro de 1991!

O Grêmio foi em campo com Emerson no gol; Chiquinho, João Marcelo, Vílson e Lira; Pino, Caio e Juninho; Renato, Alcindo e Assis. Espinosa era o técnico e colocara o time para frente. Numa tarde de extremo azar e que nada dava certo, o nosso time não conseguia marcar e furar o ferrolho montado pelo Claudio Duarte, técnico dos capinchos. Foi um jogo violento em que Renato e Pino foram amarelados (e Pino, particularmente nervoso e exaltado, foi substituído por Grotto para não ser expulso, diga-se de passagem). Lembro-me que o Marquinhos, jogador do inter, fez uma falta em cima do Assis para expulsão, quase amputou a canela do nosso jogador, e o juiz aliviou. As garras de Perondi começavam a aparecer.

E eis que o inenarrável aconteceu. Gol espírita dos colorados pelos pés de Alex em consequência de algumas falhas. E lembro-me particularmente frustrado porque esperávamos ganhar, porque nosso time era, sim, melhor. E aí a confusão aconteceu. Enquanto deixávamos o estádio, ouvíamos o rádio. E, algo incrédulos, ouvimos que o inter não permitira que se realizasse o anti-doping em seus jogadores Simão e Célio Silva (claro, Srs, sempre eles com essas suspeitas de envolvimentos ilícitos). A torcida fez um movimento de querer voltar para dentro do Estádio e os brigadianos desceram o sarrafo. Nos dias seguintes, o furdunço estava armado e as acusações voavam de um lado para outro, sendo que a imprensa gaúcha unanimemente dizia que o inter agira certo e que fora o Grêmio que queria impor esse exame, versão mentirosa que até hoje vemos circular. A verdade é que havia uma previsão em regulamento e o inter violou-o. E fê-lo com bênção de Perondi, presidente da FGF. Pejorativamente, a IVI até hoje refere-se a esse jogo como o Gre-nal do xixi.

Assim, quando chegamos à partida de volta, em 08 de dezembro, no Beira-Rio, o Grêmio acreditava que reverteria o placar negativo, além do que, quando viesse o julgamento no TJD, se cumpriria o regulamento e o sci perderia os pontos, implicando dizer que seriamos heptacampeões. Ledo engano, porém. Não contávamos com a insídia vermelha e o desprezo de Perondi pelas normas e pela ética. Perondi era de uma abjeção tal que faz Novelleto parecer menino de coro de igreja.

A torcida gremista foi agredida pela Brigada Militar na chegada ao Beira-Rio. Pedras voaram e houve um enfrentamento monstro à entrada do brete que haviam preparado para os gremistas. Foi terceira e a última vez que pisei no Beira-Rio em um jogo válido por um campeonato. Só pisei novamente naquele antro em um jogo da Copa do Mundo de 2014. Eu fora com um primo e um amigo, este colorado (mas dos honestos, suportáveis). Separamo-nos à porta do Estádio. Dentro de campo, o pau cantou.

Espinosa colocou um time ofensivo com Émerson; Chiquinho, Vílson, João Marcelo e Lira; Jandir, Pino, Juninho e Caio Renato Gaúcho e Alcindo. No decorrer da partida, Juninho, que torcera o joelho no primeiro tempo, seria substituído por Assis, o que foi excelente, já que ele marcou o segundo gol nosso. Houve nove cartões amarelos, sendo quatro para nossos jogadores. Cuca, jogador do inter, noves fora sua cara de sonso sempre sem saber o que se passa, fez uma falta em Jandir de corar carrasco da inquisição espanhola!

Nós tivemos muito mais chances. Lembro-me de um chute no travessão de Alcindo, logo na metade do primeiro tempo, que tinha de ter entrado, mas as traves coloradas pularam junto com o goleiro deles. Muitos gremistas, inclusive nós, gritáramos gol!

O segundo tempo, logo no comecinho, veria Simão, o consumidor de substâncias, fazer pênalti em Alcindo que estava cara-a-cara com o gol. Renato Marsiglia era o juiz e marcou o pênalti, mas não deu cartão ao jogador colorado. E aí houve confusão. Um sai-para-lá-empurra-aqui-que-eu-empurro-ali que parecia não ter fim. O juiz demorou a parar a turma, mas, finalmente, Lira pôde cobrar em um tiro forte e certeiro, 1×0 para nós.

E a coloradagem desesperou-se. Batiam que batiam, provocando reações idênticas de nosso lado. Não nos deitamos. Dominamos amplamente o jogo. Eles, se não nos enganamos, só conseguiram duas finalizações, mas como batiam… nos nossos jogadores. Caio e Marquinhos estavam especialmente inspirados e mandaram bolas na trave e na rede pelo lado. Outro lance que pensáramos ter saído gol. Houve ainda uma cobrança de falta magistral de Lira e uma batida direta, logo após, de Alcindo. O jogo encaminhava-se para o final (já estávamos com mais de quarenta minutos) e críamos que ficaria no 1×0. E eis que, em um momento em que eu, distraído pela minha vizinha à qual pedia o telefone (e ela deu-me, namoramos quase quatro anos, diga-se de passagem), quase não vi o Alcindo penetrando na área, só vi a bola caindo nos pés de Assis que lhes driblou o arqueiro Fernandez, um Lomba com grife, e acertou o chute no canto direito. Festa gremista no Beira-Rio (lembram da minha vizinha a quem pedira o telefone? Pulamos essa etapa. Roubei-lhe um beijo na comemoração daquele gol. Não se assanhe, gurizada. Os tempos eram outros. Quase apanhei do pai dela. Foi duro convencer o Cel. Idelfonso. Sim, o pai dela era militar ainda por cima. Duríssima minha vida).

Os colorados partiram para cima do juiz e queriam ganhar no grito. Nada adiantou. A vitória era nossa. E aí a coisa bizarra chamada FGF agiu. A taça foi-nos entregue! Assis levantou-a, demos volta Olímpica, saímos daquele antro em estado de graça, o pessoal foi comemorar na Goethe (menos eu, que tive de me apresentar formalmente ao Coronel, pedir-lhe permissão para conhecer-lhe a filha, explicar-me a ele, fazer-me de estancieiro rico sem o ser para amolecer-lhe – e deu certo…). O interessante é que eu me recordo de uma entrevista do Perondi no dia seguinte a dizer que o julgamento no TJD seria decisivo e que o campeonato estava aberto. Ora, como assim? Se estava “aberto”, por que se entregara a taça?

E, no dia 12, veio a bomba. O TJD rasgou o regulamento e absolveu o sci. Incredulidade total. Lembro-me que apenas Paulo Sant’anna e Lauro Quadros reclamaram desse despautério. E mais, diante disso, Perondi foi à TV, com a cara mais deslavada do mundo, dizer que ele era forçado a fazer um terceiro jogo. E marcou-o para domingo, dia 15, no Beira-Rio novamente. Armou-se o circo para impedir o hepta gremista.

Não pude ir ao terceiro jogo. Já retornara a Bagé. O fato é que o time que entrou em campo, entrou desestimulado ao extremo. Emerson; Chiquinho, João Marcelo, Vílson e Lira: Jandir ( que seria substituído por Nestor Marquez), Pino, Caio e Assis; Renato e Alcindo ( que sentiria e entraria Júnior). No papel, um time ofensivo. Em campo, acabou sendo um dia não. Assisti pela televisão um Grêmio impactado pelo que acontecera fora de campo não conseguir marcar e repetir o bom jogo do domingo anterior. Poucos chutes a gol. Os colorados batendo à vontade sob o olhar irônico e laxista do juiz, o conhecido Carlos Rosa Martins. Ponto alto do jogo? A briga entre Renato e Alex, que terminou com a expulsão de Portaluppi. Diga-se de passagem, Alex deve ter ouvido sinal de ocupado por uma semana. O juiz ainda expulsaria Lira injustamente. O Grêmio teve três expulsos e conseguiu, mesmo assim, impedir que os vermelhos marcassem.

E o jogo terminou 0x0. E o sci levantou a taça que Perondi prometera-lhes. E outras taças deles sob encomenda vieram enquanto Perondi presidiu a FGF. Assim, os Gre-nais do Gauchão de 1991 são-me particularmente caros à memória, eis que nos roubaram um título que, na bola e no campo, ganháramos. Foi um exemplo do que já passamos nas mãos da federação gaúcha de falcatruas.

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