GRÊMIO 115 anos

Quando, em 15 de Setembro de 1903, os trinta e dois pioneiros reunidos no Salão Grau daquele hotel da Rua 15 de Novembro, iniciaram as discussões que culminariam com a fundação do Grêmio naquela tarde, não poderiam imaginar que estavam dando o pontapé inicial na maior, mais gloriosa, linda, inigualável e fantástica história do futebol mundial. Com efeito, o Grêmio foi e é um clube pioneiro, inclusivo, democrático e o único no Rio Grande do Sul que pode bater no peito e exclamar aos quatro ventos: sou o clube do povo.

Se o Grêmio tivesse um rosto, ele seria o de todos e o de cada um de nós, de vez que nós gremistas, partes indissociáveis, somos sua gênese e, ao mesmo tempo, o Grêmio é nossa Alma Mater. O Grêmio é gigante e infinito porque faz parte de nós e a todos acolhe sem distinção. O Grêmio é o clube dos porto-alegrenses de vanguarda, dos gaudérios das coxias de Bagé, das colonos da Serra e dos missioneiros; dos estancieiros e dos peões, dos gaúchos e de qualquer brasileiro, dos brasileiros e de todos os estrangeiros. O clube inclusivo que tinha, nos anos 30, Bombardão como torcedor-símbolo, um homem íntegro, feliz, sincero e dedicado ao clube. Um homem negro, é verdade, mas aos gremistas nunca foi importante a cor de cada um, até porque somos todos azuis, pretos e brancos. O clube de Everaldo, de Lupicínio Rodrigues, de Lara e de Foguinho. De Mostardeiro, Kunz, Tavares Py e Oswaldo Rolla. O clube que, nos anos 30, tempos de galopante anti-semitismo, recebia sócios judeus e tinha atletas dessa fé, ao contrário de outros no estado que, à época, lhes fechavam as eucalípticas portas. Hoje, então, gremista, tu podes orgulhar-te de ser parte do Clube de Todos, de uma apaixonada Nação Imortal, símbolo do Rio Grande do Sul.

O Grêmio de Todos desperta paixões inexplicáveis e avassaladoras, sacrifícios imortalizados no Hino e ídolos eternos que atravessam gerações, sempre se adicionando estrelas à constelação quase infindável de heróis copeiros. Não há gremista que não tenha uma história de abnegação ou sacrifício pelo Grêmio. Não há gremista que não tenha apoiado o clube nos momentos de necessidade e não tenha ficado eufórico e imortalmente feliz nas glórias… Partidas inesquecíveis, cada gremista tem as suas. Pouco espaço há aqui para listá-las todas e se ousássemos fazê-lo, cometeríamos certamente uma injustiça, pois tantas há que terminaríamos por olvidar uma…

Ousarei contar uma, porém, não só porque é uma maneira de homenagear o Grêmio, mas também porque traz uma memória afetiva que me é caríssima, assim como o nosso clube. Falarei de Lara. E por que falarei de Lara? Porque meu avô era-lhe fã. Meu avô, o maior gremista que eu conheci, que me transmitiu toda a paixão pelo Grêmio e cuja primeira pergunta que fez ao meu pai, quando este foi pedir-lhe permissão para namorar minha mãe, sua filha, foi se ele era gremista. Meu avô que oferecia um jantar a cada 15 de setembro e que mantinha uma bandeira do Grêmio hasteada à porta da Estância, hábito este a que dou continuidade até hoje.

Todos conhecemos a história de Lara e seu fim, naquele jogo. Em setembro de 1935, cardiopata, recebeu as ordens médicas para não atuar. Fê-lo mesmo assim e veio a jogar todo o primeiro tempo, fechando o gol. Debilitado, igualmente, pela tuberculose (há controvérsias sobre isso), foi internado naquele mesmo dia e veio a falecer no dia 06 de novembro daquele mesmo ano. Lara jogou dezesseis temporadas no Grêmio, de 1920 a 1935. Realmente, um feito inigualável, em um tempo em que o Atleta realmente se identificava com o clube.

Lara fez parte das histórias que ouvia na minha infância. Não o vi jogar, evidentemente, mas meu avô, viu. Teve a oportunidade de, pessoalmente, vê-lo atuar em diversas partidas entre 1925 e 1934, como não cansava de contar, em ocasiões em que ele viajava de Bagé a Porto Alegre e, na capital, não perdia uma oportunidade de ir assistir a um match, como se dizia então. Lara e meu avô eram contemporâneos; nosso goleiro era de 1898, meu avô, de 1895. Quando se falava com o meu querido avô sobre qualquer goleiro, de qualquer época, a resposta era inequívoca: “não chega aos pés do Lara”, e, invariavelmente, seguiam-se relatos de feitos extraordinários do nosso Lara. Meu avô era uma enciclopédia sobre vários assuntos, y compris o futebol, mas sobre os goleiros, sabia mais do que tudo, sem qualquer exagero.

Uma vez, para provocar (porque, no fundo, eu sabia a resposta), perguntei-lhe quem atuara melhor, Lara ou Yashin? Fitou-me longamente e respondeu: “Lev Ivanovitch Yashin era um goleiro fenomenal, o melhor de seu tempo, assim como Eurico Lara era o melhor do Rio Grande do Sul, do Brasil e do Mundo à sua época. Entre um e outro? Lara. Por quê? Simples: porque era nosso, era de Alma gremista.” E era profunda a mágoa que meu avô tinha da CBD por terem preterido Lara na convocação para a seleção brasileira. Esse sentimento pelo Lara, como muitíssimas coisas positivas, herdei meu velho, amado, saudoso e gremista avô, pelas mãos de quem conheci, por exemplo, o Olímpico, em 1976, aos quatro anos de idade. Não vi o Lara jogar, por razões óbvias, no entanto, os relatos do meu amado avô eram tão vívidos e eloquentes que sinto como se tivesse visto as atuações do único jogador brasileiro que foi imortalizado no hino de um clube, e com todo o mérito: “Lara, o Craque Imortal/ Soube o seu nome elevar/ Hoje, com o mesmo ideal/ Nós saberemos te honrar”.

E uma das maneiras de honrá-lo é celebrarmos o Grêmio, continuarmos a apoiar nosso clube, é sentirmos a grandeza de nosso tempo e de nosso clube, é vivermos plenamente a alegria, a honra e o privilégio de sermos gremistas.

Parabéns, Grêmio. Parabéns, Gremistas. Parabéns, Rio Grande do Sul. Parabéns, Brasil. Parabéns, América. O time glorioso, campeão do Rio Grande do Sul, do Brasil e da América está completando seus primeiros cento e quinze anos. Outros muitos cento e quinze anos virão, com suas vitórias, alegrias, angústias, incertezas, euforias, virtudes e, principalmente, títulos. Afinal, Grêmio Imortal, levamos-te no sangue azul, preto e branco que nos corre nas veias, és nossa alma tricolor e, assim, por seres eterno, tu, Grêmio, nesse imenso Universo Tricolor, faz-nos igualmente perenes. Obrigado, Grêmio. Tuas glórias são as nossas glórias e a tua grandeza traz a nossa felicidade.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

%d blogueiros gostam disto: