CRÔNICAS DA NÁRNIA DOS PAMPAS: O SOGRO, A VÁRZEA E A LUZ

Coluna do Leitor*

Chovia na longínqua Carlos Barbosa, lá no alto da Serra. As brasas da churrasqueira se apagavam, e da saborosa e inebriante caipirinha restavam apenas os bagaços.
Sua noiva dormia, seus pais haviam ido ao sítio, e ele, a exemplo de todos os domingos à tarde, dedilhava umas arranhadas notas de quem aprendeu sozinho em seu violão.
Seu Grêmio goleara por 4×0, e apesar de um gramado beirando o impraticável, com outra atuação de luxo, com direito a quase dois minutos de roda de bobo em um dos gols.
Ao silenciar o violão, ele deitou-se a mirar o teto e os inúmeros quadros de títulos do seu Grêmio. Mas um canto vazio da parede o intrigou.
“Bem que podia ser o Brasileiro”, falou a si mesmo com os dentes cerrados para não acordar sua noiva.
“Mas deixe estar”, pensou…”o Flamengo perdeu agora há pouco pro Ceará, mas é um baita elenco, e o São Paulo é o melhor do país na atialidade, não temos chance…ah, tem o festejado Inter, que vem encantando a imprensa do RS…e tem o Palmeiras…”
E assim, seu pensamento se esvaiu pra lugar algum, e ele adormeceu.
Após um breve sono, levou a noiva pra casa e foi ao sítio sozinho (ela não curte ir lá em dias chuvosos).
Ligou a TV na Globo, para ver o que anunciavam como “um dos grandes jogos da rodada, São Paulo x Fluminense.
O tédio foi tamanho, que ele adormeceu novamente (duas vezes, uma delas com uma Polar na mão).
Devem ser times reservas, pensou ele. Nada! Três desfalques entre os 22 em campo.
1×1 xoxo, varzeano. Na casa do tal “líder”.
Findado o jogo, e seu merecido descanso, foi filar uma bóia da sogra (com o intuito de ver a prenda, claro…) e pra sua infelicidade o sogro lembrou do jogo dos vermelhos.
“Bom, é uma oportunidade de ver essa máquina de jogar futebol!”, pensou. Afinal, ele não assiste a jogos do co-irmão. Se considera um tanto azarado. Mas bota azarado!! Na única vez que houve uma troca sequencial de 4 passes…pá! Gol do Cruzeiro!
“Vai anular” pensou.
Feito! Anulado um gol legal do Cruzeiro.
E assim arrastou-se aquele festival varzeano de balões até o derradeiro apito, aonde na verdade, ambos comemoraram.
O Grêmio era o único time que ele via jogar com frequência. A várzea que se apresentou ao ver os demais acendeu uma luz! Sim, senhoras e senhores…o Grêmio está léguas à frente dos “postulantes ao título”!! Até porque, quem assistiu ao VT de Chape x Palmeiras como ele, não viu nada de extraordinário nesse time do Felipão.
Temos uma luz! Administrando bem, dá pra ganhar sim!
Aliás, em 2008, o Grêmio, segundo a IVI, “tinha resultados mas não tinha produção”…e nesse ano, só ouço “a campanha do SCI é de quem vai brigar pelo título!”. Se tem produção, ninguém viu ontem. E quanto ao moço que não assiste aos jogos do SCI, ele ouviu a IVI dizer que “fizeram uma graandee partida!”
Então, nesse caso, ele não perdeu nada nas anteriores.
E ao findar aquele domingo chuvoso, deitou-se, antes de dormir, mirou novamente aquele espaço vazio em sua parede, e pensou consigo:
“Ainda pode ser o Grêmio”

ADRI “ARGENTINO”

*Texto de inteira responsabilidade do Leitor. Reprodução autorizada pelo autor.

Um comentário em “CRÔNICAS DA NÁRNIA DOS PAMPAS: O SOGRO, A VÁRZEA E A LUZ

  • 5 de setembro de 2018 em 01:03
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    Bem bacana a crônica. Tive o desprazer de assistir um pouco dos jogos mencionados, e pareciam em câmera lenta de tão chatos. É esse o futebol do primeiro e segundo colocados? Tento me lembrar se há cinco, dez anos atrás os jogos do Tricolor eram assim também. Talvez fosse, mas hipotetizo que o investimento emocional tornava a experiência digesta. Enfim, acho que o Grêmio atual está me deixando mal acostumado.

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