Como conhecer seus jogadores de forma humana, a inveja e o bem-e-o-mal

“O embate entre o invejoso e o mau é ciclópico.” Paulo Sant’Ana.

Faz poucos dias eu estava assistindo a entrevista coletiva do Marcelo Oliveira junto com o Bressan (veja aqui), naquele clima normal de ouvir sem prestar a devida atenção. Falavam sobre um jogo menos interessante (Grêmio vs Goiás), são do time reserva e, em geral, os jogadores e as perguntas são para lá de óbvias e pouco imaginativas.
Até que um repórter, não sei o nome e nem reconheci a voz, num lapso de criatividade fez uma pergunta fora da curva, apesar de singela. Perguntou para ambos jogadores o que representavam suas mães nas respectivas vidas e carreiras, visto que se aproximava o dia dedicado a elas.
Imediatamente se ouviram risadas na sala de imprensa, dos jogadores, de repórteres e outros, que eu atribuo à surpresa pela pergunta e também de alívio por não ter que ouvir sempre as mesmas coisas e responder também o mesmo.
Não vou reproduzir as respostas para vocês, recomendo que parem aqui antes de prosseguir e, se não o fizeram ainda, assistam a entrevista que disponibilizei o link, porque o que me importa é analisar o evento e dizer que me causou diversos sentimentos inesperados.

Surpresa: Não esperava de uma normalmente entediante entrevista coletiva ouvir algo pessoal, nem a própria pergunta e isto mostra como é pobre nossa crônica esportiva (parabéns ao repórter);
Temor: Antes mesmo de abrirem a boca, temi que fossem responder com banalidades ou fugir da questão;
Admiração: Quando ouvi Marcelo Oliveira contando que foi criado apenas pela mãe, apesar de ter pai vivo, que saiu de casa aos 15 anos e mesmo nesta situação sempre contou com o apoio dela;
Simpatia: Quando Bressan descreveu sua família como fanáticos por futebol e que a mãe aprendeu sobre o esporte e até a fazer balõezinhos para participar da vida do pai e dos seus irmãos, que sempre lhe deu carinho, abraços e apoio;
Remorso: Por seguidamente criticar ambos de forma desumana, por seus erros e por seu fraco desempenho, como se fossem peças defeituosas em uma máquina, e não seres humanos (Se aqui neste ponto você pensou “Ah, ganham uma fortuna pra isso… e etc, [simple_tooltip content=’“Ah, ganham uma fortuna…”
Meus amigos, se somos bons lutamos pela justiça. Queremos o mérito a quem merece o mérito, queremos punir o ruim que desfruta do mérito sem o merecer. Faz parte da natureza humana acreditar que temos importância e temos controle sobre o destino e a vida dos outros, e sobre a maneira como o universo deve se desenvolver. O sujeito mau, por outro lado, desfruta da injustiça e não se preocupa em corrigir nenhuma, ao contrário, deseja é o desequilíbrio.
Veja o que Paulo Sant’Ana escreveu uma vez na ZH:

“Andei especulando esses dias sobre o embate entre um mau e um invejoso. Eles não se falam, mas se odeiam. De vez em quando, o invejoso solta uma farpa para cima do mau, mas de forma sibilina, para que o mau perceba de fininho, o invejoso usa da covardia do anonimato ou da agressão subjacente.
Tenho assistido a esse surdo e feroz combate entre o invejoso e o mau, é um conflito ciclópico. E, enquanto os dois – isso é interessantíssimo – travam esse combate, vão então se destruindo.
O embate entre o invejoso e o mau é ciclópico.
Ao fim, restarão os dois vencidos.”

Para mim ele viu duas forças combatendo, mas não são o mau e o invejoso, são o mau e o bom, ou melhor, o bem e o mal.
E o bom, ou o bem, sempre tentarão destruir o que acreditam ser o desequilíbrio entre o mérito e o sucesso. Então a boa notícia é que você é um dos bons. A má notícia é que este sentimento tem um nome – bem identificado pelo Sant’Ana como INVEJA.

Mas te ensinaram que ter inveja é ser mau, logo, como posso ser do bem e do mal ao mesmo tempo… você perguntaria. Bem, este aqui é um lugar de loucos pelo tricolor, então fora de assuntos estritamente futebolísticos não espere soluções, só mais complicações. Mas tenho um auxílio para você ao menos, no vídeo abaixo.

Obrigado. De nada.

‘]então clique aqui[/simple_tooltip]).

Quando deixei de ver a entrevista com ternura pelas belas histórias humanas que estavam ali ao menos em manchetes, e passei a sentir-me mal, me lembrei de um excerto, um trecho, do escritor Brian Philips que faz pouco traduzi para vocês em outro texto (se você perdeu, leia aqui).

Diz assim:

28. Conclusão Genérica No. 1 (Mainstream): A Tecnologia, que está continuamente nos deixando mais próximos dos atletas, também está deixando mais difícil os ver como pessoas reais. Nós sabemos o que Dwyane Wade (jogador de basquete do Miami), comeu no café-da-manhã, mas existe muita informação fragmentada, talvez haja muita informação em geral, para que nos permita formar com tudo isto uma figura do ser humano. Nós devemos lutar contra isto. Nós devemos tentar mais ter empatia pelas outras pessoas. WHAFF (palavra criada pelo Autor que significa MEME e deboche) é o equivalente na internet a atear fogo em morcegos.
31 Notes on the Breakdown of Practically Everything

É tão estranho quando acontece isto. A compreensão lógica do fato narrado pelo Brian Philips ficou na minha memória, tanto que acabei relembrando e estou escrevendo aqui sobre isso. Mas a compreensão verdadeira sobre o que ele queria dizer, um entendimento mais profundo da idéia que ele queria me transmitir, somente foi ocorrer quando a lógica se uniu aos sentimentos diante de um fato que vivenciei (a entrevista coletiva dos jogadores e a pergunta sobre as mães).

Certamente, amigo leitor, isto deve ter ocorrido consigo diversas vezes. Comigo garanto que sim.
Acho que o fato em questão é bem significativo e, se você quiser ler mais algumas idéias minhas sobre isto, [simple_tooltip content=’Muito já se falou sobre o ser humano racional e o irracional. Ambos convivem dentro de nós, e o futebol é um bom exemplo disto, quer estejamos falando dos profissionais envolvidos, ou de nós torcedores.
No final do Século XIX, Phineas Cage era um funcionário da ferrovia que sofreu um acidente com explosivos. Antes do acidente, Cage era considerado cuidadoso, racional e organizado (tanto que lidava com explosivos). Após o acidente, onde uma barra de ferro privou-lhe de um olho e parte do tecido cerebral frontal, o homem tornou-se agressivo, mercurial e impulsivo. Foi o primeiro caso médico documentado onde ficou demonstrada a função da parte frontal de nosso cérebro como a parte racional do pensamento.
Atualmente não precisamos de barras de ferro ou explosões. Os exames de imagem demonstram que quando pensamos logicamente, nosso cérebro irriga a parte frontal com sangue, e quando somos emocionalmente atingidos, se irriga a parte central (límbico).
Acontece que estas duas partes conversam entre si, apesar de poderem independentemente tomar do buteco. E nestas conversas, onde muitas vezes não se obtém um acordo, ocorre o que chamamos de compreensão profunda de algo. É aquele momento em que o sujeito tem uma iluminação, diante de um fato emotivo que “engancha” no que já sabe logicamente. Quantas pessoas já conhecemos que narram acontecimentos que “mudaram sua vida”… São exemplos de quando estas duas partes de nosso cérebro se unem de forma a dar um salto intelectual. As coisas vão acontecendo, passa dia e passa noite, sem que a gente chegue a pensar. Eh difícil explicar, porque duas coisas alem da morte são certas na vida: Todo mundo acha que pensa e acha que tem bom-senso. Conheci já muita gente que dizia ser sem sorte, gente que lamentava a própria falta de inteligencia ou esforço. Já ouvi gente reclamando de si por faltar qualquer coisa, ate mesmo honestidade. Nunca, nunca mesmo, ouvi alguém dizer que não tem bom-senso. Todos acham que possuem e, se olharmos o mundo por ai, eh obvio que esta impressão eh errônea.
Da mesma forma as pessoas pensam que PENSAM, mas pensar não eh olhar as laranjas na feira e escolher a melhor, ou decidir onde e o que vai almoçar. Pensar eh viver o universo, as experiencias e suas observações e senti-las, se perguntando os motivos e consequências das coisas.
Um exemplo que me ocorre agora. Vejo na minha janela o sol entrando pela veneziana, iluminando uma planta que tenho nesta sala onde escrevo.Eh uma planta de folhagem verde no formato de uma palma da mão fechada. Esta num vaso médio deixado no chão. Tem duas flores brancas, que parecem penas de uma ave marinha. Dentro destas flores em forma de penas, nasce um pedunculo tb branco, que parece uma lagarta.
Um dia notei que dita planta era desagradavel. Algo nela me incomodava esteticamente. Uma das flores, a da esquerda, parecia ter sido mordida pelo Mike Tyson como a orelha do Holyfield. Alem disso, o pedunculo era torto e esverdeado. Enquanto isto, a flor da direita era pura perfeicao.
Tambem notei que as folhas da direita eram de aparencia mais saudaveis, maiores e mais claras, comparadas as suas irmas da esquerda. Certamente escondi um fato de vcs para que o misterio desta assimetria vegetal perdurasse por tantas linhas. Escondi o fato que a janela que ilumina a planta fica exatamente a direita.
Gênio! – você diria – eh obvio que o lado da planta que recebe maior luminosidade vai se desenvolver melhor e, por isso, existe assimetria e esta eh a causa do desconforto estético causado pela planta.
Realmente. E resolvi isto apenas girando o vaso ocasionalente, para dar chance a todas as partes de se desenvolverem mais uniformemente.
Mas vejam, o problema existia e eu olhava a porcaria da planta todo o dia, ate que o fato me incomodou emocionalmente, quando passei a sentir repulsa pela flor defeituosa. Somente quando conversaram os dois “lados” do meu cérebro, eh que a compreensão profunda me permitiu tratar o assunto e o resolver.’]veja aqui.[/simple_tooltip]. Mas deste pensamento, eu formulei a hipótese de uma compreensão para outro tema que me interessa: Por que pessoas aparentemente inteligentes, muitas vezes se tornam absolutamente obtusas, beirando a estupidez, quando analisam futebol?

Vejam, estou ligando a pergunta acima com o fato ocorrido de ter compreensão lógica de um tema, mas não a real compreensão profunda sobre ele.

Vocês já viram isto, assistindo um jogo ou ouvindo um jogo do Grêmio. Aquelas opiniões de “analistas” e “comentaristas” que nos irritam profundamente, nos chocam e fazem levantar do sofá discutindo com a TV ou o rádio como se o sujeito estivesse ali para responder. Aqueles momentos em que você ouve estas opiniões e pensa “Meu, este sujeito não tem a menor idéia do que está falando!”.
Muitas vezes o absurdo é que estes mesmos analistas são pessoas inteligentes, até preparadas, e você ouviu dando opiniões outras vezes com bom desempenho. Então o mistério é esse.

Para estes caras, nestas situações, falta a compreensão profunda sobre o futebol que do GRÊMIO, do CLUBE, da PAIXÃO e da TORCIDA que eu e você temos porque estamos ligados não só pela lógica, mas pela emoção. Não os estou defendendo, veja bem. Considero isto uma falha deles. Temos diversos analistas e comentaristas que, apesar de não serem gremistas, conseguem capturar nossa paixão e compartilharem de nosso entendimento completo (como por exemplo estes textos aqui e aqui).

Por outro lado, temos os analistas e comentaristas que estão muito ligados na lógica, mas a contrariam por causa do sentimento de coloradismo. Para mim os exemplos maiores são Areia Mijada, Capitão e o “Isento das Bochechas Vermelhas”, para usar a nomenclatura do CornetadoRW.

Você percebe que são inteligentes, e percebe que possuem conhecimento, e percebe que conhecem o GRÊMIO, PAIXÃO e TORCIDA, mas acabam opinando com pouquíssima qualidade, entrando em contradições que um estudante de ensino fundamental não cometeria, sustentando opiniões risíveis e posições insustentáveis. E ainda agem enfurecidamente quando são confrontados, mesmo que com educação.
Alguém há de dizer que são mal-intencionados, simplesmente assim, e não incapacitados pela relação de lógica e sentimentos como eu estou teorizando. Mas assim não me parece, eis que qualquer um agindo de má-fé seria mais maquiavélico e menos óbvio. É justamente a obviedade da motivação emocional deles, ou falta de controle emocional, que torna fácil desmascará-los – coisa que não aconteceria se estivessem agindo com uma inteligência mediana normal.

Enfim, se percebe que até para a função simples de jornalista esportivo, comentarista de futebol ou analista de futebol (que sequer estudo ou diploma exigem), é necessário mais controle emocional do que inteligência ou estudo, o que diz muito sobre o esporte em si.

 

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