Coluna do Leitor – E tudo começou na noite fria de 28 de julho de 1983

Olá, turma do Hospício.

Divido com vocês a minha estória sobre 29 de Julho de 1983, não sei se vocês vão gostar, mas resolvi por numa mensagem a minha memória afetiva tricolor. E não conheço local melhor para falar de loucura que no Hospício.
Um pouco de cenário do que estava rolando comigo em 1983. Meus pais colorados resolveram sair do RS no final de 1982, tentando melhor sorte no Nordeste. Parte da família e conhecidos já estavam lá e, devido a falta de perspectivas em Passo Fundo, os velhos fizeram a mala, pegar os três filhos e se mandaram.
Virei gremista devido ao meu avô paterno, seu Amadeu. Na verdade, virei gremista em 77 quando o meu xará André Catimba fez aquele golaço. Aos 6 anos, descobri duas coisas: que existiam outros Andrés no mundo e que aquele time com a camisa listrada era incrível.
Meu avô e meus tios eram a minha conexão com o Grêmio, assistia os Gre-Nais na casa deles e, quando éramos campeões como em 77, fazíamos uma carreata com todos os gremistas da cidade comemorando a taça.
Com a mudança para o Nordeste, minha conexão se perdeu e eu provavelmente era o único gremista num raio de 500 quilômetros. Além de toda a neura de chegar em outro planeta que falava uma língua que você não entendia, falar que era gremista em Aracaju de 83 era como falar que torce para o Shandong Luneng hoje. Os caras te olhavam como se eu fosse um doido.
Naquele tempo, informação só vinha pela TV e, para amenizar meu desfortúnio, a Globo começou a mostrar a Libertadores, por causa do Flamengo.
Importante ressaltar que o tamanho da torcida do Flamengo de hoje tem origem naquele período entre 80 e 87. Na minha sala de aula, a proporção era de 75% flamenguistas, 15% vascaínos, 9.9% fluminense e eu. Era um massacre e uma pressão tipo “mas por quem você torce no Rio?” e eu falava ” para ninguém, eu sou gremista”. Ai a casa caia na minha cabeça.
Mas Deus é justo e verdadeiro e a Liberta começa e adivinha, ganhamos do Flamengo do Zico no Maracanã… Deu gosto chegar na sala no dia seguinte com o peito estufado… Até hoje tenho a mesma reação….
O fato é que passamos de fase e o Flamengo caiu fora. O interesse pela Liberta foi a zero em Aracaju e a Globo me fez o favor de não passar mais nenhum jogo nosso. Só o Globo Esporte me salvava com informações muito fraquinhas, tipo só os gols e mais nada. Dureza e meus pais nem davam bola para a minha agonia (colorados afinal….).
Mas chegou a final no dia 28 de Julho e Deus interveio e a Globo resolveu passar o jogo, ( o primeiro jogo não foi transmitido para o Nordeste). Assisti sozinho na TV da sala. Meus irmãos eram pequenos e meus pais… deixa para lá. Passei o primeiro tempo bem, não gritei muito no gol do Caio pois ainda era começo de jogo e estava com medo de acordar a casa. Mas o segundo tempo foi muito porrada, o gol deles veio no chuveirinho e o Grêmio se enervou e virou tudo um entrevero.


Até que o Renato faz o primeiro milagre…. E a taça veio para nossa casa. O Galvão narrou o jogo e deu uma sorte que segue com ele narrando nossos jogos até hoje. Eu acordei toda a casa e os vizinhos com os gritos. Virei a noite na frente da TV, vendo o corujão da Globo, completamente rouco e sentindo de novo aquela sensação das carreatas de Passo Fundo. No dia seguinte me avô e meus tios ligaram para o meu pai, para zoar ele e comemorar comigo, não necessariamente nesta ordem.
Hoje tenho 47 anos, moro aqui em Poços de Caldas, tenho um filho de 11 anos que é gremista. Mas as coisas mudaram tanto que, mesmo ele sendo o 0.1% na sala dele, ninguém fala “qual é o seu time em São Paulo?”. Por que hoje, nós somos conhecidos e respeitados no mundo todo. Hoje o Grêmio passou as fronteiras do Brasil e, se andar em qualquer cidade do mundo com a nossa camisa, vamos ser reconhecidos. E tudo começou na noite fria de 28 de julho de 1983.

Abraço, internos do hospício, André.*

*Texto de inteira responsabilidade do Leitor. Reprodução autorizada pelo autor.

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