Capítulo Quatro – Barry Glendenning– Os melhores cronistas esportivos e escritores do futebol mundial e porque você deve lê-los

São tempos bicudos, meus caros.

Temos tragédias acontecendo, desemprego e bagunça por todo o Brasil, eu sei. Que bom que aqui tratamos de futebol, e ele nos serve para aliviar esses malogros diários. Se seu time ganha não importam os problemas e a chuva torrencial que cai lá fora há dias, sempre haverá um sol particular brilhando sobre nossas cabeças.
É neste clima que quero lhes apresentar mais um autor do futebol global de qualidade. Em comparação com a aldeia eu diria que é um tipo de Wianey Carlet, mas com talento. Ao contrário de ser um humorista acidental como o falecido WC, Barry Glendenning possui um humor proposital e bem pensado. Se assemelham verdadeiramente é no “talento” para dizerem coisas fora de tom e oportunidade, realmente insensíveis e ofensivas, sobre mortos famosos logo após o acontecimento. Nisto e no azedume, claro. Mas como eu disse no início, Barry tem talento. Vejam por vocês mesmos.

4. Barry Glendenning

Barry Glendenning é um cara engraçado. Ele também é um cara ranzinza, e muitas vezes tem uma visão bastante cínica das coisas, mas seus textos para o The Guardian são geralmente engraçados, cativantes e inteligentes. São poucos os jornalistas espirituosos empregados no sisudo Guardian atualmente, e a seção sobre futebol do jornal é uma das melhores fontes na internet para o fã que quer ficar atualizado e entretido. Glendenning também pode ser ouvido regularmente no excelente podcast Football Weekly.
Barry Glendenning nasceu em 12 março de 1973 na Irlanda e é Editor de Esportes do The Guardian. Estudou Artes na Universidade de Dublin, mas sem se formar. Também colabora com o site humorístico THE FIVER.

Nosso herói também é muito conhecido na Inglaterra pelo texto abaixo, onde ele acusa o importante ex-proprietário dos WOLFES, milionário e Lorde Sir Jack Hayward (logo após seu falecimento aos 91 anos) de racista, xenófobo e o compara ao Hitler.
“Sob a ótica correta, ele era um grandessíssimo racista, mas de um jeito amigável e cativante de ser. Na sua propriedade nas Bahamas, ninguém podia dirigir um carro estrangeiro, apenas modelos ingleses. Ele era abertamente xenofóbico e racista, mas ainda assim muito generoso. Em pensar em alguém ainda sequer frio no caixão, talvez devêssemos estar sensibilizados ao menos. Como diz minha mãe, se você não tem nada de bom a dizer sobre um falecido, então não diga nada. Ao menos ele era franco em relação à sua posição, mas também o era Adolf Hitler e isso não fez dele um cara legal.”

Um texto de Berry para vocês:

Um momento de 2016 para lembrar: Brasil finalmente vence o ouro olímpico.
Depois de diversas visitas ao pódio dos jogos, mas nenhum no degrau mais alto, os jovens jogadores brasileiros finalmente conseguiram no último verão carioca e tinha que ser Neymar.

Com seu epicentro no Maracanã, o rugido gutural liberado que saudou o chute inaugural do Brasil se espalhou por todas direções pelo Rio de Janeiro e além, fazendo ridículos os sujeitos que arrogantemente sustentam que, no esquema cósmico das coisas, o torneio masculino de futebol nas Olimpíadas é pequeno e inconsequente. Eles possuem, evidentemente, direito à terem uma opinião errada mas às 5:57 da tarde no dia 20 de Agosto se tornou abundantemente claro que para as pessoas do Rio de Janeiro nada mais importava.
Apesar de eu ter sido enviado para o interior para cobrir golfe, eu imaginava que com ventos favoráveis poderia chegar no estádio a tempo para a final do futebol, exceto se tudo desse horrivelmente errado. Meu planejamento tinha sido bastante meticuloso: Imagine um gangster chapado no filme Goodfellas tentando preparar um prato de massa com molho de carne enquanto descarrega as armas que outro gangster não quer enquanto arruma as malas para a mulher viajar para Pittsburgh. Este era eu.
E então devido a uma série de acontecimentos aleatórios envolvendo o técnico do time de golf feminino da África do Sul, Gary Player, uma chuva torrencial, um mal-entendido sobre transporte cortesia e um engarrafamento gigantesco, eu fracassei em chegar ao jogo. Apesar disto, quando o Brasil tomou a frente do jogo no minuto 27, eu estava no quarto do hotel a muitos quilômetros do Maracanã, apressadamente colocando roupas secas e tentando imaginar pelo clamor crescente que emergiu pela cidade qual dos jogadores brasileiros tinha feito o gol.

Ao contrário daquela no meu quarto, a TV colocada no lado de fora do boteco da esquina funcionava e me foi oferecida a única cadeira de plástico amarelo para sentar, na calçada lotada, por dois senhores locais que pareciam uma mistura de Rio de Janeiro com os dois velhotes do camarote do The Muppet Show – um deslinde satisfatório mas que quase certamente explicava o motivo daquela cadeira vazia anteriormente, onde minhas costas felizmente encontraram apoio.
O inglês deles era tão bom quando o meu português, mas tendo gaguejado e apontado minha primeira escolha de cerveja e depois tendo pedido ao barman que me trouxesse uma bem mais forte no lugar daquela, eles acabaram de demonstrando como era importante aquela final para eles e como estavam desesperados para vencer. Através de seu repetido e entusiasmado uso de expressões como “chupa meu pau”, “filha da puta”, “sua mãe é uma cadela” e “vai te fuder”disparadas genericamente na direção dos jovens jogadores alemães fazendo seu trabalho na tela pendurada sobre as cabeças, eu pude decifrar o grau de desespero neste conto do futebol.
Apesar de ter gasto mais de 60 anos disputando diversos jogos olímpicos, parece que nenhum time brasileiro tinha jamais chegado ao ouro. Tinham chegado perto: prata em Los Angeles 1984 e Seoul 1988 foram seguidos por medalhas de bronze em Atlanta 1996 e Beijing 2008, e então outra prata em Londres. Tão perto e tão longe.
O sucesso de rivais odiados como Argentina e Uruguai serviram apenas para exacerbar cada uma das derrotas atordoantes e avassaladoras de espírito em uma nação onde o futebol é o único esporte que tem real importância e onde a ausência deste elusivo título olímpico “tipo” sub-23 era a única embalagem óbvia ainda intocada em uma quase completa estante de taças. O torneio olímpico de futebol pode não importar para a maioria, mas é uma grande coisa para eles.
Nos piores casos hostis, mas em geral ambivalentes em relação aos jogos de 2016 impostos sobre uma cidade onde parece que a vaidade de poucos sobrepujaram as necessidades de muitos , tamanha era a obsessão dos cidadãos brasileiros em ganhar o torneio de futebol que ficando entusiasmados com a danada da coisa era o única concessão óbvia que os bons cidadãos do Rio estavam preparados para fazer em relação à uma Olimpíada que a maioria deles desejava que estivesse sendo jogada em qualquer outro lugar.

Meus novos amigos estavam certamente excitados: Um fã do Fluminense e outro do Santos colocando de lado suas diferenças pelo bem maior de se sentarem na calçada despejando uma torrente indecente e incansável de xingamentos aos seus e aos jogadores alemães.
O empate da Alemanha os calou: um silêncio perturbador desceu sobre o bar assim que Max Meyer equilibrou o gol de falta de Neymar com um chute rasteiro que passou por Weverton. Tinha sido uma coisa esperada, Alemanha batendo três vezes na madeira, ameaçava repetir a humilhação dos 7×1 que a recepcionista do hotel tinha me garantido que os cidadãos do Rio não gostavam de comentar. Prorrogação veio e se foi, então pênaltis.
O tempo pareceu entrar em câmera-lenta. Nas mesas, pratos com comida e copos com bebida permaneciam intocados. Nos cinzeiros, cigarros queimavam até o filtro. Os locais mal conseguiam se conter enquanto um à um os jogadores de Brasil e Alemanha se apresentavam para fazer seu dever patriótico. Sempre seria Neymar e quando Nils Petersen teve seu pênalti defendido o atacante brasileiro alcançou seu destino. Uma mesa foi derrubada, copos voaram sobre a turba, os velhotes dos Muppets choravam de alegria, bêbados se abraçavam e uma cacofonia de buzinas de carros explodiu por toda a cidade.

Finalmente… depois de 12 tentativas mal-sucedidas, o Brasil tinha alcançado seu destino. Um brinde foi levantado por todos os presentes, então alguém trocou o canal para as finais do vôlei masculino.

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