As histórias das cicatrizes do Umbigo

(Primeiro Tempo)

– Estas cicatrizes no meu braço? Elas foram causadas por um lateral batido pelo Renato Portaluppi, no dia 28 de Julho de 1983 – me falou enigmaticamente o Umbigo.

Tudo começou em uma viagem longa de ônibus semidireto entre Porto Alegre e Uruguaiana. Eu pretendia fazer uma visita surpresa para a minha namorada, que morava naquela cidade da fronteira a mais de 600 km de distância da capital. O ônibus “pinga-pinga” parava de tanto em tanto tempo para deixar passageiros descerem e subirem. O movimento das pessoas indo e vindo do apertado (e já mau-cheiroso), banheiro do coletivo era interminável. Malas eram ajeitadas, crianças choravam, pessoas espirravam e em seguida uma sucessão de vidros eram rapidamente abertos e, por causa das reclamações, logo fechados.
Eu tinha terminado o livro com que me mantive apartado do ambiente turbulento pelas primeiras horas de viagem. Quem passou pelos vinte anos sabe que é impossível ficar sem fazer nada e sem poder dormir por mais de meia-hora, assim me virei para o passageiro ao lado. Eu o estivera ignorando desde a partida da rodoviária, então não foi totalmente sem culpa que lhe disse um tímido “longa esta viagem, não é?”, ou algo assim…

O indivíduo que estivera olhando pela janela me voltou um rosto pequeno, circundado de cabelos brancos e usando uma boina de tecido cinza. Seu nariz era grande e as maçãs do rosto avermelhadas, quase a face de um papai-noel magro. Tinha um sorriso tranquilo e simpático, e sacudiu a cabeça antes de responder, como dizendo “Ok, entendo que você preferia ficar quieto, e agora está entediado sem o livro, podemos conversar”.

Me disse seu nome, mas não recordo. Lembro que me pediu para que o chamasse de “Umbigo”, que sempre tinha sido seu apelido. Quando concordei, chamando-o de “Seu Umbigo”, me disse:

-“Seu” Umbigo não, o meu umbigo! – e soltou uma gargalhada

Esta resposta me fez rir também, e fez com que me sentisse à vontade com ele. Parecia um bom sujeito. Eu ainda estava na idade em que a curiosidade é maior do que o bom-senso, e logo tinha perguntado o que tinha causado uma estranha cicatriz em seu antebraço esquerdo, que era impossível de não ser notada. Era uma cicatriz bem marcada, esbranquiçada, em relevo, e na forma de um 7.

-Pois aconteceu no dia e na hora da final da Libertadores em Porto Alegre, entre Grêmio e Penharol. Eu tinha motivos para não ver o jogo, apesar de morar a menos de 3 km do Olímpico. Também não assisti pela TV, fechei-me no meu quarto e cerrei os vidros da janela. Quase morri de hemorragia, acredite.

-O que aconteceu? – perguntei pensando no “eu tinha motivos para não ver o jogo…”
-Foram os cacos de vidro do tampo da mesa de cabeceira, que ficava ao lado da minha cama. Me cortaram exatamente no antebraço, quando o tampo quebrou.

-Mas o que isto tem a ver com o Renato, cobrando uma lateral, na final da Libertadores de 83?

-Foi porque eu estava em pé sobre uma cadeira e me assustei com o barulho que ele causou, caindo sobre o tampo de vidro da mesinha! – respondeu

-Não entendi, nada. O barulho… o que???

Umbigo suspirou e disse:

-Vou explicar: Eu estava trocando uma lâmpada queimada no meu quarto, no escuro, em cima de uma cadeira na ponta dos pés, quando o barulho que ele (Renato), causou me assustou e me fez cair sobre a mesa, que tinha o tampo de vidro e que me deixaram os cortes e as cicatrizes em forma de 7. Nunca vou esquecer o horário em que queimou a lâmpada, porque olhei no relógio. Foi bem na hora.

– Mas o Renato cobrar uma lateral não teria causado nenhum barulho que pudesse te assustar, a três quilômetros do Olímpico e fechado dentro de um quarto…!

– Não, nao… o barulho foi aquele grito monstruoso. Foi aquele grito que me derrubou. Era um grito tão forte que entrou pela minha janela apesar dos vidros fechados, que veio subindo da rua até a minha janela, que serpenteou entre os automóveis em movimento, passando pelas pessoas que levavam bandeiras tricolores porque tinham ficado sem ingresso, pelos flanelinhas e vendedores, pelos milhares de carros estacionados ao redor do estádio. Um grito que escorreu pelos vãos dos muros ao redor do estádio, que pulou por cima dos muros, que saiu pelos portões das sociais, das arquibancadas, que desceu as escadarias apertadas do Olímpico, que nasceu das gargantas das milhares de pessoas que viram o gol.

Continuou

-Foi um grito tão alto que o goleiro Fernandez sequer ouviu o barulho que a bola fez quando explodiu no barbante da goleira, depois de socar sua luva para trás. Foi um mil vezes mil vezes mais alto que o gemido de dor do centroavante César cabeceando tão forte quanto lhe permitiu o vôo que levantou ambos seus pés do chão na direção da bola, que antes tinha descrito uma parábola perfeita depois de ter sido chutada com raiva e convicção pelo próprio Renato.
Era um grito que estava sendo já preparado pelos torcedores quando Renato deu dois balõezinhos na bola para se livrar de dois marcadores, que tentavam recuperar esta bola que tinha passada por Tarciso que ainda deu uma matada de joelho antes de fazer o passe, com a bola que lhe fora jogada um segundo antes no lateral batido por Renato Portaluppi.

Olhei novamente para a cicatriz, agora com um espanto redobrado. Certamente era um 7 perfeito, que poderia ter sido desenhado de propósito. Apertei os olhos pensando…

-Sei o que passa por sua mente… – me falou o Umbigo, num sorriso triste – Geralmente evito contar estas histórias, porque pensam que eu sou louco. E se virou novamente para a janela, onde o mundo passava velozmente.

Olhei para o relógio. O tempo passara quase por mágica desde que começamos a conversar. Ainda havia bastante viagem pela frente. Suspirei.

-Então, você disse “estas histórias”… Tem alguma outra como a da cicatriz do Renato?

Umbigo riu alto e falou – Guri esperto! – Ok, então olha esta outra cicatriz…

E por incrível que pareça nas costas da sua mão direita, podia se ver outra cicatriz em relevo… um perfeito número 9.

-Não diga que foi outro grito da torcida do Grêmio! – falei rapidamente

-Não, claro que não. Esta aqui foi um escorregão que levei perto do Morumbi, onde tudo se iniciou. Tudo por culpa do Paulo Roberto, em 1981….

-Tenho até medo de perguntar… – disse eu…

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