A NOSSA RICA HISTÓRIA – SARDINHA I E FOGUINHO

O Grêmio é gigante e disso ninguém duvida – nem os adversários ou a IVI.

E gigantíssima, então, é nossa história. Essa é a terceira coluna nesse sentido, em que queremos resgatar a passagem pelo clube de alguns jogadores especiais que foram os defensores de nossas cores em décadas passadas em que não existia a cobertura midiática de hoje, tampouco redes sociais. Uma época em que se disputavam poucas partidas (por exemplo, em 1930, disputamos apenas 17 partidas) e que os principais jogadores tinham empregos outros, não viviam como atletas. Havia comerciários, brigadianos, engenheiros, dentistas, bancários, agricultores, contínuos e até agentes funerários. Todos davam, àquela altura, sua contribuição especial, sacrificavam-se pelo clube. Era um período diferente, quiçá mais romântico. Hoje, então, queremos homenagear dois jogadores especiais que passaram pelo clube: Sardinha I e Foguinho.

Sardinha I, isso mesmo, como um monarca, o apelido desse jogador tão especial tinha lá o “primeiro” em algarismo romano. Eurides Guasque de Mesquita, nascido provavelmente em Porto Alegre em outubro de 1906, jogou pelo Grêmio entre 1922 e 1934, sendo que, em 1934, apenas aos 27 anos, passou a treinador do Grêmio, posto que ocuparia por dois anos. Em 1936, aliás, treinaria a seleção gaúcha (àquela altura havia uma competição nacional com seleções dos estados), na qual, aliás, tinha atuado várias vezes naquele princípio da década de trinta. O apelido Sardinha ele ganhara ainda em 1922, o I foi adicionado ao apelido alguns anos depois, quando seu irmão mais novo, Eunides, também se juntou ao grupo, tendo ganho o apelido de Sardinha II.

Sardinha I tinha uma excelente qualidade técnica e uma visão de jogo extraordinária (não foi por mero acaso que ele passou a técnico em 1934). Era um zagueiro de grande qualidade. Vejam, então, que a nossa tradição de zagueiros populares e de qualidade é muito antiga. Era comum ler-se nos jornais da época elogios rasgados à sua atuação. E os elogios eram muito merecidos, tanto que foi, enquanto atuou, disparado, o melhor zagueiro do estado, tendo, por isso, vaga cativa na seleção do Rio Grande do Sul. Era especialista em jogadas de fundo e, embora homem de poucos gols, foi essencial a alguns torneios conquistados no período.

Como técnico, sardinha teve uma rápida porém excelente passagem. Como técnico, foi de uma especial expressividade, eis que trouxe novo conceito ao clube (que estendeu à direção da seleção gaúcha). Era ela que estava à frente da equipe quando do Gre-nal farroupilha, em 1935, última partida do Lara. Foi de Sardinha I a ideia de comemorar a vitória nesta partida por 100 anos, dada sua importância (e é essa comemoração que, todos os anos, fecha o ciclo de celebrações pelo aniversário do clube). Faleceu precocemente em 1936, meses antes de completar 30 anos, de doença fulminante que era desconhecida até do próprio Sardinha I. Deixou os gremistas perplexos àquela altura e, principalmente, com aquele sentimento de orfandade.

Contemporâneo de Sardinha I era Foguinho. Oswaldo Azzarini Rolla, o Foguinho, nasceu em Porto Alegre em setembro de 1909 e jogou no Grêmio entre 1929 e 1942, vindo do São José. Marcou, em sua passagem, 116 gols em 250 jogos. Nos anos 50 retornaria ao Grêmio como treinador, tendo dirigido nossa equipe entre 1955 e 1961 e, após, em um breve período em 1976. Talvez por isso, haja mais gente que se lembre dele.

Dotado de grande técnica, era um atacante de qualidade e que transmitia grande segurança ao resto do time. Estreou no Grêmio em setembro de 1929 contra o Americano, marcando seu primeiro gol com a camisa Tricolor naquela partida. Há uma história curiosa. Consta que o Grêmio instalou um sistema novo de iluminação na Baixada por causa dele. Era comerciário e trabalhava na Casa Renner. Então, só podia treinar à noite. Como um jogador de qualidade especial, o presidente Álvaro Antunes viu-se compelido a dar condições de treino, fazendo a iluminação da Arena da Baixada. Foguinho tinha um físico muito desenvolvido, treinava remo e levantava peso, o que lhe dera uma considerável massa muscular.

Foguinho era muito popular. Inúmeros artigos são-lhe dedicados no A Federação, principal periódico de então. Participou do Gre-nal Farroupilha, tendo marcado um dos gols naquela partida e sido fundamental no outro, marcado por Lacy, para quem dera o passe.

Jogou até 1942, quando abandonou a cancha dedicando-se aos seus negócios. Foguinho voltou ao Grêmio em 1955 como treinador. E o Técnico Oswaldo Rolla foi o pensador da máquina gremista, o iniciador do time fantástico dos 12 em 13, uma equipe que, em 1956, deu começo a uma hegemonia fantástica jamais vista. O time que o Corneta do RW homenageou com um almoço especial no sábado dia 02 de junho (iniciativa espetacular, diga-se de passagem) foi iniciado por Oswaldo Rolla e conquistou nada menos que 12 campeonatos gaúchos em 13 anos. Foi um período de um Grêmio vencedor e quase imbatível. Pode-se dizer que Oswaldo Rolla foi o inventor do jeito gaúcho de se jogar: com amplo condicionamento físico adaptado a cada jogador.

Destaque-se, por fim, que Foguinho participou como comentarista em vários programas entre 75 e 84. Com ele, a IVI não se criava. Mas os tempos eram outros e até havia jornalistas dignos de respeito naquela altura. Oswaldo Rolla faleceu em 1996, aos 87 anos, em Porto Alegre.

Como se pode ver, nossa história é incomparável e riquíssima, sendo certo que as gerações atuais têm o dever de conhecê-la e preservá-la. Por isso nosso dever de memória! Afinal, somos loucos… pelo Grêmio.

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