A NOITE EM QUE AS COISAS NÃO ACONTECERAM

A noite de quarta-feira foi-nos cruel.

Nós gremistas tínhamos um time indubitavelmente melhor mas que não soube furar a marcação flamenguista, tampouco rompendo aquela formação de contenção que eles improvisaram após, aos cinco minutos, terem achado um gol em falha nossa. Temos de admitir que tiveram sorte. Só que as coisas podem ser sempre piores do que imaginamos.

Li em algum lugar, creio que no twitter de alguém, que a derrota não passou pela arbitragem, por pior que ela tenha sido (e foi péssima). Ela passou por duas falhas lamentáveis em dois jogos, pela incapacidade de acertar o foco e de transformar em gols a superioridade técnica e de posse de bola. Foi uma questão puramente tática. E isso saltou aos olhos de quem estava no Maracanã cercado por uma torcida hostil e que mostrou medo de que empatássemos porque sabiam que nosso time era-lhes superior. Isso foi apenas um desabafo, já que não analisarei o jogo em si. O Delfos e o Gui Zado já trouxeram ao Hospício Tricolor duas crônicas especiais, com acurada análise dos motivos que nos levaram à desclassificação e o que podemos esperar das duas competições importantes que estamos disputando. Se tu achas que foi ruim perder, imagina quando tu foste alvo de uma baita ironia do destino e de uma pegadinha involuntária de um casal de amigos e terminaste por assistir o jogo na casa do inimigo? Ah, pois é. Foi o que me aconteceu na quarta-feira. Resolvi, então, compartilhar com vocês essas aventuras não tão alegres e que, ao contrário das outras histórias e reminiscências de estádios, não terminou lá muito bem.

Não é a primeira vez que assisto jogos em território adversário. Já assisti um jogo do Brasil, em Buenos Aires, na Bombonera, contra a Argentina no meio da torcida “hermana” em um dia em que o Brasil ganhou (4×2), tendo que aguentar calado e segurar a vontade de cornetear uns parentes argentinos que me tinham levado junto. Já o fiz em território misto ou neutro, como um Grêmio e São Paulo no Morumbi, há muitos anos, um zero a zero insosso, e um Grêmio e Vasco, no Rio de Janeiro. Nunca, porém, tinha tido a (péssima) experiência de assistir o jogo completamente cercado pelo “inimigo”(e aqui uso apenas para ilustrar, pois um torcedor adversário não é um inimigo, é apenas uma pessoa que não tem a honra ou a inteligência de ser gremista). Isso aconteceu no jogo contra o Flamengo.

Nós temos a mais fanática torcida do Planeta. Não tenho dúvidas disso. O Flamengo, porém, tem uma quase tão fanática quanto a nossa, embora não chega aos pés da nossa. E eu pude sentir na pele esse fanatismo. No final das contas, foi hilário, mas teria sido ainda mais se tivéssemos vencido a partida. Vamos aos fatos.

Eu estava no Rio de Janeiro. Amiúde vou à Cidade Maravilhosa a trabalho e a lazer. Gosto imensamente de viver perigosamente. Tenho inúmeros amigos na terra do Ramiro Madureira, mas, na verdade, todos sabem que o Rio de Janeiro é aquela cidade linda onde bode pasta agachado para se desviar dos projéteis perdidos e que as pessoas, após 23h, andam na rua em desabalada carreira, como se fossem tirar o pai da forca, furando todas as sinaleiras e olhando ansiosas em todas as direções como biruta de aeroporto em dia de vendaval. Mesmo assim, voltei ao Rio. Na terça-feira, dia 14, após um dia de trabalho tão estressante que considerei pedir emprego em alguma zona conflagrada na Síria para desfrutar de alguma paz, fui para o Evento Consular. O pessoal do Consulado do Grêmio no Rio está de parabéns. Reuniu quase duas centenas de gremistas fanáticos (pleonasmo, bem sei), que se reuniram para celebrar o Grêmio, contar histórias, tirar fotos com as taças… Extremamente divertido. E ainda havia o pessoal de fora que fora apenas à festa, como também havia convidados especiais, como o Oliveski, o Ducker, o Jardel etc. Estávamos todos muito animados e, embora a cautela reinasse, todos acreditávamos em uma vitória.

Tendo ali encontrado um amigo, ele me perguntou se eu iria ao jogo e disse que sim, claro. Mas não iria junto com todos os gremistas. Só que eu, há semanas, tinha sido convidado por uns clientes a ir em um setor lá, determinado, não o de visitantes, onde esse casal possui cadeiras especiais, onde haveria uma festa e tal, sendo um setor misto. Ponderei muito e aceitei, até porque já vi no Maracanã, diversas vezes, o tal setor misto. O que a imprensa gaúcha chama de coisa recente, no RJ faz-se há décadas. Não vi mal, então, em aceitar, pois imaginei que seríamos um punhado de gremistas naquele setor, e assim fiz. Os problemas começaram, porém, quando cheguei ao estádio.

Como atravessaria uma área grande povoada por flamenguistas para encontrar esses amigos à porta do estádio, fui à paisana, isto é, com o manto tricolor dentro de uma bolsa de papel. Ao chegar ao estádio, o segurança pediu para olhar a bolsa e não queria me deixar entrar com a camisa do Grêmio ali dentro. Naquele momento, vi que a coisa já não seria fácil. Era um sinal para bater em retirada, mas eu não me deito e insisti. Perguntei ao pessoal ali na catraca: “ora, se a torcida é mista, por que não pode?”. Recebi uma das respostas mais originais e inteligentes: “sim, é torcida mista, mas não pode qualquer coisa de outro clube”. E ele me apontou um guri que estava sendo barrado porque estava usando uma camisa do Chicago Bulls!

Pensei em voltar e tentar comprar um ingresso da área de visitantes, mas a hora do jogo aproximava-se e fui informado na bilheteria próxima (a de visitantes era em outro lugar) que não havia como trocar os ingressos ou adquirir outros porque não se estava vendendo mais (descobri, depois, que não era bem assim e que a informação estava errada). Meus clientes que estavam comigo, além de dois advogados meus sócios no Rio de Janeiro que também estavam junto, ainda disseram que deixássemos o jogo e fôssemos embora. Eu, teimoso, disse que “nunca”! Para ver o Grêmio, qualquer sacrifício vale. Voltei à rua, andei umas quantas léguas, fui para trás de uma árvore e coloquei a camisa do Grêmio por dentro das calças. Ficou um espetáculo, tipo o homem-berinjela, mas e que se dane, pensei. E voltei para a entrada.

Entramos e fomos para o tal espaço mais. A bóia era boa, confesso. A bebida, idem. Só que eu detesto vermelho, por razões óbvias. E a tal área mista era mista apenas no nome. Aquele mundaréu rubro-negro e eu calado, circunspecto. Pensava eu que se abrisse a boca, meu sotaque denunciar-me-ia e já antevia as manchetes do dia seguinte: “gaúcho trucidado no Maracanã”. Os lugares eram espetaculares. Pertíssimo do gramado, logo atrás dos bancos dos jogadores, com acesso ao lounge com comida e bebida liberadas. Só que…

Eu sou um homem grande. 1,93m, mas à minha frente parou um rapaz negro e careca que, na fila da frente, de pé, era mais alto que eu. A criatura não tinha mão, era um remo. Uma bifa bem levada daquela manopla deixaria qualquer vivente ouvindo ocupado por umas décadas. Ao lado dele, um mulato gordo resolveu sentar à minha frente e puxar assunto com quem? Um doce para quem adivinhar. E eu respondia só com uns “ham-ham”, acenos e uns “ah”. E o jogo rolando e, aos cinco minutos, aquela fatalidade do gol. Eu calado. Raiva remoendo-me, arrependimento mortificando-me até que, em um lance, Everton perdeu um gol. Sim, aconteceu isso mesmo, soltei um “m**d*, p*ta que los parió” impensado e, o gigante das mãos de vela olhou-me feio. O outro olhou também para mim e o meu amigo e sócio Diogo disse: “ele é uruguaio, turista”. E os dois deixaram quieto. Antes uruguaio vivo que gaúcho morto, pensei.

Vi, então, o tal Rodinei, jogador deles, ser completamente dominado pelo Cortez algumas vezes, que conseguia infiltrar e tocar a bola ao Everton. E eu tinha que ficar calado. Vi o Cebolinha chegar um pouco atrasado em lance e, infelizmente, jogar a bola longe, e usar de todas minhas forças para não levar as mãos à cabeça. Vi nosso ataque mais efetivo, chegar mais e não conseguir marcar. Vi de perto o desespero na cara dos flamenguistas que já diziam estar esperando o nosso empate. Vi o técnico do flamengo apupado diversas vezes em suas substituições. E eu lá calado. Calado não, comentava em espanhol. Só que sempre cuidando das palavras escolhidas e dos comentários sempre feitos à meia-voz. O Miguel, outro amigo que me acompanhava, também morador do Rio de Janeiro (carioca e flamenguista, frise-se), cutucava-me de tempos em tempos para eu falar mais baixo.

E chegou o segundo tempo e o cronômetro galopava. E o desespero tomava conta de mim. O árbitro mal-intencionado como eu denunciara em tuítes durante a semana fez bem o seu papel caseiro e ajudou o rubro-negro contra nós: picou o jogo, inverteu faltas, não deu o pênalti a nosso favor… E eis que aconteceu o inenarrável. Em lance quase ao final, o Douglas, no banco, pulou da casamata e, com belo chute, repôs a bola em jogo, tirando a bola do gandula e do lateral do Flamengo que a estavam segurando indevidamente. Na verdade, o Douglas repassou a bola para o nosso jogador em campo bater uma falta. E eu, que até então quieto estava, verdadeiro espião da KGB, gritei um “isso, Douglas”. Vi que tinha feito bobagem porque os olhares atônitos dos meus amigos sinalizaram que algo de podre havia ali. Ah, pois é…

Estávamos todos de pé. E quando disserem que tamanho não importa, ah, importa, sim. Eu vi alguns medindo-me de alto a baixo e estou certo que não houve confusão imediata porque ponderaram o fator altura x largura. Já imaginava o traslado do meu corpo para Bagé quando os dois à minha frente mandaram os demais sossegarem. Acabou o jogo, o mais alto deles, o negro passou por mim, disse-me o nome, Márcio, e, rindo, ainda me passou a corneta: “teu time perdeu, uruguaio”. Eu ri, e deixei ali o ambiente enquanto os flamenguistas deliravam e eu remoía a nossa injusta eliminação. Fui refugiar-me no lounge e ali fiquei ainda por 40 longuíssimos e bem regados minutos esperando esvaziar o Maracanã.

Bem, foi isso que aconteceu. Tinha que dividir com os amigos tricolores essa pequena desventura, mas termino apenas dizendo que a nossa sequência será vitoriosa em 2018: estamos na Libertadores e no Brasileirão. E vivos em ambos. Uma coisa, porém, asseguro-lhes: outra dessas eu não passo. Estou demasiado entrado em anos para tanto. No fim das contas, pensando bem e dizendo a verdade, novamente, uma aventura digna de hospício, do Hospício. E pelo Imortal passaria essa ou outras piores. Afinal, sou louco… pelo Grêmio!

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