A LIBERTADORES ERA NOSSA PELA PRIMEIRA VEZ

Ontem foi dia 28 de julho de 2018.

E também o 35o aniversário de nossa Primeira Conquista das Américas. Assim mesmo, em maiúsculas porque aquela vitória foi de uma grandeza tal, de um heroísmo mesmo, diante das circunstâncias, estando gravada na memória de todos os gremistas, mesmo os que não viveram aquele momento mágico. Quem dirá, então, para um guri de onze anos de idade e que teve o privilégio de assistir as duas partidas, em Montevidéu e em Porto Alegre?

Há trinta e cinco anos ganhávamos a Libertadores. Em 28 de julho de 1983, um frio dia de inverno em Porto Alegre, conquistávamos a América. Nossa grandeza imortal tornava-se incomensurável, extravasava as fronteiras e, agora internacional, era o primeiro passo para torná-la mundial. Afinal, tomáramos de assalto o continente americano, a América era nossa pela primeira vez. Àquela equipe heroica e copeira, com tantas centelhas de genialidade, temos muito a agradecer. A todos e a cada um dos jogadores e à comissão técnica. É por causa deles que somos tricampeões da América. E também será por causa deles que, se tudo der certo, seremos tetra este ano.

Já tive oportunidade aqui de falar do privilégio de ser gremista e partilhar com todos algumas memórias de infância, e essa Libertadores naquele longínquo ano de 1983 é uma dessas indeléveis memórias familiares que, só de pensar, meus olhos ficam marejados. Acredito que a melhor maneira de celebrar a grandeza daquela conquista e o aniversário do título seja relatar-lhes essa história familiar e, sob as luzes das reminiscências de quando era criança, partilhar com os gremistas de hoje aquela lembrança pulsante, hoje ainda tão viva que me recordo das cores e sons daquela noite como se tivesse acontecido na noite passada.

Nossa campanha na Libertadores, até aquele momento, tinha sido muito boa, com apenas uma derrota e sete vitórias. Ganháramos do Flamengo por 3×1, por exemplo, em pleno Maracanã! A equipe comandada por Espinosa era, sim, excelente. E a campanha provara isso levando-nos com autoridade às finais. O primeiro jogo foi em Montevidéu.

Saíramos de Bagé no dia 20 de Julho de 1983 com destino a Montevidéu. Nossos ingressos esperavam-nos no hotel na capital Uruguaia, mas qual não foi nossa surpresa quando, ao chegarmos, notar que os ingressos não eram destinados à torcida visitante, mas, sim, a do Peñarol! O dia 21 foi dedicado à procura de ingressos novos. Só que as coisas funcionavam de outra maneira naquela época, e meu avô conseguiu ingressos. Os outros? Foram dados a funcionários do Hotel que, aliás, nos ofereceram uma parrillada no dia do jogo.

Chegamos ao Centenário, naquele dia 22 de julho, debaixo de uma chuva de projéteis lançados pelos torcedores do Peñarol. O que me recordo vivamente é que havia muitos uruguaios torcendo para o Grêmio, hinchas do Nacional, naturalmente. A imprensa do Uruguai dizia que o Peñarol era o favorito (o que a imprensa gaúcha também fazia, diga-se de passagem) e, sinceramente, os torcedores uruguaios também acreditavam piamente nisso, não sem certa base, de vez que a equipe uruguaia buscava o quinto titulo da libertadores. Era um time de respeito. Por isso lhes doeu tanto quando, no primeiro tempo, Tita abriu o placar, ali pelos doze ou treze minutos. O silêncio sepulcral deles chegou a assustar. Na verdade, comemorávamos tanto que demoramos a ver o quão atônitos eles estavam.

Em campo, os uruguaios passaram a apelar para as faltas. Violência que o juiz não coibiu. Chutes, pontapés desleais, cotoveladas… técnica do desespero que, aliás, eles repetiriam no jogo em Porto Alegre. O intervalo veio e o que me recordo foi de uma briga gigante no alambrado entre a policia uruguaia e torcedores do Peñarol. Voou pedaço amarelo e preto para todo lado. O segundo tempo morno, até que eles empataram. Sinceramente, o resultado não foi justo. Merecíamos ter ganho aquele jogo. Mais importante, porém: haveria a segunda partida em Porto Alegre no dia 28 de julho.

Sem exageros, não dormi na noite de 27 para 28 de julho. A excitação era muita. Chegáramos a Porto Alegre ao entardecer do dia 27, e a cidade toda estava tomada pelas três cores gremistas. No dia 28 estava muito frio. Fomos para o estádio Olímpico relativamente cedo porque minha avó estava conosco. Os Srs. não imaginam o quão raro e a logística que isso envolvia! Éramos vinte pessoas! E vinte pessoas da minha família equivalem a umas oitenta pessoas normais…

O Olímpico estava cheio. Muito cheio mesmo. Conheço gente que, apesar de ter ingresso, não conseguiu entrar. O fato é que o jogo em si começou muito agitado e veloz. Logo de começo, marcamos o gol. Casemiro fez um lançamento longo para Osvaldo que se infiltrou pelas costas dos jogadores da defesa uruguaia e, na área, chutou. Quando já achávamos que a bola passaria, Caio deixou sua marca, deu um carrinho e enfiou a pelota nas redes. Primeiro gol.

Desesperados, os uruguaios começaram a agredir. Acho que ali eles viram que a taça não lhes pertenceria. Lembro-me de uma falta no Tarciso que o juiz deixou barato. A verdade é que os uruguaios abriram-se e nós deixamos de marcar ainda no primeiro tempo. Algum nervosismo transparecia. No segundo tempo, os uruguaios passaram a cavar faltas no ataque e a técnica deu certo, porque foi numa destas que eles empataram.

Um tio reclamou que isso faria acontecer uma terceira partida (o regulamento dizia que, em caso de empate, haveria uma partida extra em terreno neutro). Minha avó olhou feio para o meu tio e disse naquele tom que não admite contradição: “nem penses nisso, vamos marcar um gol”. Quem conheceu minha avó sabe que a contrariar não era uma boa ideia. E o time a ouviu. Tanto que o gol veio uns cinco minutos depois. Tarciso cobrou lateral para Renato que cruzou para César e este, de cabeça, marcou. Grêmio 2 a 1! E meu avô gritava ensandecido: “eles obedeceram tua avó”.

E daí o pau cantou. Brigas generalizadas. Uma cotovelada assassina de Ramos no Renato originou uma briga e o juizão acochambrou, expulsando os dois. Mas não havia mais tempo para os uruguaios.

E o apito final ressoou. Meu pai e minha mãe estavam se beijando apaixonadamente e minha avó estava pulando, literalmente, abraçada com minha irmã que tinha cinco anos de idade e era a primeira vez que ia ao estádio. Meu avô e eu pulávamos tanto, também abraçados, que ele perdeu os óculos (que, aliás, acreditem, conseguiu achar inteiros!). Inesquecível. Todos cantávamos e, no gramado, o time percorria o campo com a taça. Eu vi ao vivo a antológica cena do Hugo De Léon com a taça à cabeça, sangrando. Levamos horas para sair do Olímpico, sendo que eu me recordo de ficar olhando fixamente para tudo e todos de modo a memorizar cada detalhe e cada momento daquele jogo.

Aquele time vitorioso conquistou com raça aquele título para nós e, no final daquele ano, venceria o Mundial. Nesses trinta e cinco anos, muitas foram nossas vitórias e esse caminho vencedor tem de ser homenageado. Obrigado, Grêmio; obrigado, Casemiro, Osvaldo, Mazarópi, Paulo Roberto, De León, China, Tita, Tarciso, César, Renato, Caio e Baidek. Obrigado, Valdir Espinosa! Obrigado por darem-me ainda mais motivos para ser tão louco pelo Grêmio. E que os próximos 35 anos sejam de mais narrativas como esta, que o Grêmio siga dando a todos nós gremistas, eternas crianças tricolores, memórias tão doces e tão vitoriosas.

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