A HORA E MEIA DOS GURIS

Os conceitos de futebol são iguais e diferentes ao redor do mundo, no outrora, no agora e (pasmem) no amanhã também. Discute-se exaustivamente no meio profissional estratégias e sistemas de jogo, formação de elencos e características de biótipo, fenótipo e genótipo de cada atleta para cada posição, tudo isso vislumbrando o futuro do esporte – e não apenas do futebol – em um universo paralelo aonde os conceitos atuais terão perdido seu valor.
Acho que isso possui sua lógica, até porque muitos dos estudos de décadas atrás se mostraram eficientes, como por exemplo a extração de material genético dos atletas para detectar fadiga muscular excessiva e/ou possibilidade de “estourar” a curto prazo.

Claro que iniciei assim pra mostrar o quanto ser burocrático é maçante a quem tem contato com o conteúdo. Então…
Alheio a quase tudo isso, e no papel de mero analista, eu possuo um conceito de futebol antiquado, mas que ano após ano se mostra eficiente: não escalar pelo contra-cheque ou pela “rodagem”, tampouco via essa parafernália acima citada, e sim por um quinteto de fatores: qualidade técnica, vigor, condição física, disposição e perspectiva de crescimento.
Aí entra o Grêmio de Renato.
A partida contra o Libertad nesta terça, foi emblemática, tanto quanto a do primeiro turno. Um resultado adverso aliado a um triunfo da Católica sobre a incógnita Rosário Central (terão ainda motivação para buscar vaga à Sul-Americana?) nos deixaria em uma situação de obrigação de vitória sobre essa mesma Católica na última rodada. Sabemos que o time paraguaio contava com esse trunfo, um possível nervosismo e ansiedade Tricolor para marcar logo o gol.
Mas Libertad, deixe-me dizer uma coisa: não somos mais o Grêmio lento e burocrático que foi vergado na Arena. Renato percebeu, um pouco depois do momento certo, que o velho conceito de escalar os melhores ainda é o mais eficiente.
Acertou em colocar os guris. Chega desse papo chato de “não queimar”. Põe pra jogar. Em time encaixado, não existe queima de jogador, pelo contrário: é o ambiente propício pra que entrem e desenvolvam seu melhor futebol.
Estamos todos nós longe de sermos profetas, mas também não somos comentaristas de resultados. O universo da vida real Tricolor bradava por Jean Pyerre e Matheusinho há meses. Aliás, em uma de minhas primeiras colunas escrevi “nem vou citar Matheusinho…deixa pra mais adiante”, talvez não com essas palavras, mas com essa simbologia. Isso foi em 2018 ainda. E em fevereiro de 2019 a certeza de que deviam ser titulares caía de madura. Não creio que Renato não enxergasse. É inteligente demais pra vacilar dessa maneira. Talvez tenha caído na velha falácia de “não pode queimar”. Falsa ilusão plantada por pessimistas de plantão.
Na noite de terça-feira testemunhamos um Grêmio suave e intenso, com defesa, meio e ataque em perfeita sintonia, mesmo diante da pressão pela vitória. Não vou citar a todos, mas fazer meu aparte a Paulo Victor (outrora por mim contestado) por ter sido nota 9 mais uma vez, preciso nas poucas oportunidades criadas pelo líder com 4 vitórias em 4 jogos Libertad.
Mas a noite foi dos guris. A classe de Matheusinho, a desenvoltura de Jean Pyerre…um Alisson insinuante e um Pepê atarracado, que saiu do banco e só não deixou o seu por um impedimento nível Conmebol de equívoco. Pedimos tanto, e Renatão cedeu…tanto faz se era convicção, tanto faz se quis fechar o grupo mantendo quem outrora foi titular indiscutível e campeão, ou se errou pra depois consertar e se consagrar. O fato é que, no momento preciso, o time encaixou.
A amostragem é pequena, mas deslumbrante. A hora e meia de prova de fogo dos guris deixou uma certeza: caso nada mudar, o Tetra América é logo ali.
Que Renato nos permita sonhar. Sem parafernálias. O Grêmio é isso. Jogam os melhores. E vencerá o melhor.

FOTO: LUCAS UEBEL/GREMIO FBPA

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