A Flauta e a Corneta

Antes de mais nada, peço perdão pela minha data de nascimento. Ela é involuntária.

Sou antigo o bastante para ter conhecido o futebol de clubes e me apaixonado  pelo Imortal Tricolor,  casualmente, no último ano da glória dos “12 em 13”, aquela histórica dúzia de títulos estaduais obtidos pelo Grêmio de meados dos anos 50 até o final dos 60 do século passado. Desta forma, fica claro que sou um gremista que está a transitar entre dois séculos e milênios.

Pois esta passagem também foi caracterizada pela substituição da flauta pela corneta no tratamento entre torcidas de futebol vencedoras e derrotadas a cada partida, clássico ou competição.

A flauta é um instrumento melódico, ligeiro, muitas vezes brejeiro, que até provoca graça outras tantas, como num chorinho ou marchinha de carnaval.

A corneta, por sua vez, é tonitruante, marcada, inúmeras vezes utilizada como alarme ou toque militar.

Pois foi assim, simbolizada pelas duas vozes musicais, que a brincadeira entre torcidas – que, naturalmente, também tinha traços de agressividade nos tempos da flauta – se transformou na forma esportiva de um sentimento precisamente descrito em alemão: Schadenfreude, a alegria ou satisfação provocadas pela desgraça do outro.

A mudança é simples de se entender.  A flauta era a fala jocosa, a piada sobre o adversário por conta da vitória do próprio time; a corneta é a zoação, o deboche sobre o adversário por causa do fracasso do time dele.

O que parece ser uma simples alteração de um sinal positivo para negativo tem reflexos muito contundentes no dia a dia do esporte e do convívio entre torcidas.

No caso da rivalidade do Rio Grande do Sul, aquilo que era a constante corrida para se igualar ao tradicional adversário – a grenalização – se degenerou e virou o grenalismo, isto é, o exercício de se afastar do co-irmão, não necessariamente obtendo mais êxitos, mas também torcendo e atuando (!) pelo seu fracasso.

O tema, embora próprio para ser tratado neste período em que não há futebol dentro de campo, é árduo e sombrio.

Por isso, basta, nesta primeira abordagem, apontar dois exemplos de fatos deploráveis decorrentes da opção pela corneta e o abandono da flauta:os GREnais com torcida única e a militância voluntária de advogado do SCI na justiça esportiva a favor do adversário do Grêmio na semifinal da Copa Libertadores 2018.

A perspectiva de superação desta triste realidade do futebol é virtualmente nula, antes de mais nada, porque ela sequer é reconhecida como um problema, ao contrário, muitas vezes é apontada como “normal”, quando não como “saudável”.

Mário Antonio

2 comentários em “A Flauta e a Corneta

  • 18 de dezembro de 2018 em 21:12
    Permalink

    Belo texto e boa iniciativa do debate.

    Resposta
    • 19 de dezembro de 2018 em 12:35
      Permalink

      Obrigado, Heraldo! Iniciar o debate já será um ótimo resultado para o texto. Abç

      Resposta

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