A FACILIDADE DA LIBERTADORES

A Libertadores este ano é especial e não apenas porque o Grêmio participa, mas porque, de verdade, é de Gigantes. Todos lembram, há alguns anos, quando uma certa equipe limitada mas adorada pelos veículos gaúchos andou perdida na competição continental até ser devorada por um Tigres, que os isentos periodistas vermelhos do RS resolveram dizer que aquela era a Libertadores de Gigantes (ou coisa que o valha). Só que, por exemplo, esse ano de 2018, a Libertadores verdadeiramente poderia ser chamada de gigantesca e quiçá seja a edição mais difícil desde 2007, ano da nossa penúltima final no certame. Não que as outras edições tenham sido fáceis, ao contrário. Nós sabemos bem as dificuldades que encontramos ano passado, por exemplo. Só que, em 2018, por exemplo, na fase de Oitavas de Final, entre os dezesseis clubes que ela disputaram acumulavam 35 títulos continentais. Só que não vimos ninguém falar disso na Aldeia.

Com efeito, o Estudiantes, por exemplo, sobre quem passamos, tem quatro títulos. O Tucuman, nenhum, é verdade, mas o River, que poderemos enfrentar logo ali adiante, tem três títulos. O Independiente, outro possível adversário nosso na semi, tem 7! O Boca Juniors, que poderemos pegar em uma final, tem seis títulos. Palmeiras, que não tem mundial (e continuará sem, já que o lugar na final é nosso), tem apenas um. E, dessa forma, o silêncio da imprensa gaúcha sobre esse componente tão especial é extremamente revelador e sintomático. Ao contrário, o discurso reiterado na IVI, desde o ano passado, é o mantra do “caminho fácil do Grêmio” na Libertadores. Ora, fácil mesmo deve ser o caminho dos times que nem mesmo se classificam para essa competição. Esse mantra asinino da “facilidade na libertadores” mascara, na verdade, a facilidade na imbecilidade e a facilidade na leviandade, duas facetas tão conhecidas. Ainda bem que os gremistas de boa cepa, tricolores imortais de verdade não caem nessa esparrela.

E sempre foi assim. Duvidam? Vamos lá nas reminiscências, coisa que me apetece deveras. Voltarei onze anos no tempo e vou falar da Libertadores de 2007, edição importante que nos viu chegar à final e sucumbir ante o Boca Juniors para delírio imenso dos então torcedores portoalegrenses do time argentino e para nossa tristeza tão grande porque, sinceramente, a despeito das limitações do nosso time, acreditávamos na possibilidade daquela conquista. Foi em 2007 que começou a história do “caminho fácil na libertadores”. Só para vocês terem uma ideia do quanto fazia e dizia a IVI de então, foram as reportagens e comentários da ZH sobre a libertadores e sobre a final que me fizeram cancelar a assinatura daquele jornaleco e, desde então, nunca mais viram meus pila.

O Grêmio classificara-se à competição para 2007 porque ficara em terceiro lugar no Brasileirão de 2006. E ficáramos no Grupo 3 com os colombianos Cucuta e Tolima e com o paraguaio Cerro Porteño. O sci também se classificara e caíra no grupo 4 com o Vélez (Argentina), com o Nacional (Uruguai) e com o Emelec do Equador. Nós fizemos 10 pontos, terminamos em primeiro no grupo, com 3 vitórias, um empate e duas derrotas. Tínhamos zero gols de saldo. Quatro pró e quatro contra. Eles fizeram os mesmíssimos dez pontos, também com 3 vitórias, um empate e duas derrotas, só que não se classificaram, ficaram em terceiro no grupo, tinham zero gols de saldo. Lembro-me bem, então, de Kenny Braga, alteradíssimo, gritando literalmente que se tinha de rever as regras, que o Grêmio beneficiara-se com uma chave muito fácil… E foi aí que o mantra do “caminho fácil” na libertadores começou. Saraiva, Kenny e Pedro Jabba (sempre ele) eram os que mais martelavam essa historieta.

Nas oitavas, o chaveamento fez-nos pegar o São Paulo. E na partida de ida, em 02/05, perdemos por 1×0. Foi o suficiente para a história do caminho fácil vir com toda força, já que começaram a dizer que perdêramos logo no primeiro “adversário de verdade”. E, por uma semana, essa coisa ficou sendo martelada, com as deficiências do nosso time sendo realçadas, sendo que, no dia 09, quando na partida de volta no Olímpico, foi uma equipe totalmente desacreditada que entrou em campo e que calou a IVI por algumas horas, já que ganhamos por 2×0 e passamos à fase posterior. Lembro-me particularmente do locutor, acho que Paulo Brito (assisti em Bagé, não fui ao estádio), dizendo que era incrível que tivéssemos avançado de fase…

No dia seguinte, os jornais, tanto a ZH quanto o CP, foram nessa mesma linha, como se a vitória e a classificação tivessem sido imerecidas. Interessante que o Cucuta, a quem os ivistas tinham chamado de morto e fraco, classificado em segundo no nosso grupo, venceu o Toluca do México por goleada na ida e na volta. Na fase seguinte, nas quartas, derrotaria o Nacional de Montevidéu e classificou-se para as semi-finais. O Nacional vencera, na fase de grupos, o inter, por 3×1 em casa e perdera no Aterro por 1×0. Interessante mesmo. O time fraco e galinha morta, Cucuta (palavras do Kenny Braga), passou o rolo compressor em cima do Nacional. Onde estava a fraqueza e a facilidade, então. Nenhum jornalista na Aldeia fez este raciocínio, evidentemente. Só diziam que o Grêmio tivera sorte.

E esse discurso de sorte e facilidade continuou quando avançamos. Primeiro, às quartas contra o Defensor Sporting do Uruguai. Fui a Montevidéu ver levarmos um dois a zero humilhante e constrangedor. O time não jogou rigorosamente nada e a imprensa rio-grandese lavou a alma, ovulava de alegria e falava em uníssono de que chegara a hora da desclassificação, já que fôramos “humilhados pelo mais fraco dos competidores. Na partida de volta, no Olímpico, devolvemos o placar, dois a zero, o que levou a partida para os penais. E daí, sinceramente, foi um teste para cardíaco. Lembro-me de um senhor chorando muito e eu perguntei se havia algo que eu podia fazer, que era para ele se acalmar, e ele dissera que não, nada, que a mulher dele telefonara e dissera-lhe que o estava abandonando. E eu, atônito, perguntei se ele não iria embora, ao que ele me respondeu que não sairia dali “nem morto, o Grêmio é mais importante”. Tive de abraçá-lo. Conquistei ali um amigo e um cliente. E, no dia seguinte, qual foi a manchete da ZH? Isso mesmo: foi sorte.

E aí veio o Santos. Um Santos “debilitado e fraco que nem lembra o time de tantas glórias do passado”. Essa foi a descrição feita pelo Mombach àquela altura. Lembram daquele discurso do “pior Real Madrid da história”? Ah, pois é, esse desmerecimento do nosso adversário é antiquíssimo também no Rio Grande do Sul. Nada que eles façam hoje é inédito. E a desfaçatez também. Sabem por quê? Porque o Santos classificara-se com 18 pontos na fase de grupo, foram seis vitórias! Tinha sido a melhor campanha. Nas oitavas, o Santos penou para passar pelo Caracas, é verdade, e, nas quartas, quase viu a coisa desandar porque teve muita dificuldade para passar pelo América do México. E o Santos “fraquíssimo” deu-nos trabalho, mas na partida de volta, já que na ida vencemos por 2×0 em Porto Alegre, em partida calma e que dominamos completamente. Assim, como a imprensa de São Paulo previa a eliminação do Santos, a IVI martelou a tese do Santos limitado e fraco. Só que nós tivemos uma baita dificuldade na partida de volta e a perdemos por 3×1. O gol fora de casa foi salvador. E sabem por que perdemos aquela partida? Porque fôramos acadelados jogar contra o Santos, porque o time ficou “convencido” pelas harpias que defendiam ir à SP jogar por uma bola e que o empate seria bom resultado. O Sindicato do Pontinho Fora é antigo também nesses pagos. Quase ficamos pelo caminho. E a IVI, enraivecida, teve de dizer que iríamos para a final, mas imerecidamente.

Estávamos na Bombonera naquela final, o pai, meu irmão e eu. O primeiro gol do Boca saiu em um lance absolutamente irregular, com três impedidos. E, naquele momento, estávamos melhor na partida. Senti na pele a frustração de ser roubado e voltar imensamente triste, mesmo sabendo que nosso time, apesar dos pesares, tinha plenas condições de competir com o boca, apesar, insisto, das diferenças enormes e das dificuldades. Digo mais, no terceiro gol, também lhes vi um homem impedido. Só que esse eu até dou o benefício da dúvida porque há grande controvérsia sobre se houve ou não impedimento ali. Mas no primeiro gol, não cabe qualquer tergiversação: irregularidade gritante. Aquele gol destruiu a moral do time, para se falar a verdade.

Voltamos derrotados para Porto Alegre. E derrotados entramos em campo em 20 de junho de 2007. Nosso time, treinado por Mano Menezes, entrou com Saja no gol, atrício, William, Teco e Lúcio; Gavilán, Lucas, Tcheco e Diego Souza; Carlos Eduardo e Tuta. Teco seria substituído no correr do jogo por Schiavi. E Amoroso entraria no lugar de Tcheco. Vi um time apático, convencido de que era ruim. Quiçá faltou pulso no vestiário. Não sei. Só sei que só tentamos alguma coisa nos dez ou quinze primeiros minutos do jogo. Tentou-se dar um “abafa”, meio como o Tucuman tentou fazer conosco na terça-feira passada. Faltou técnica, porém. E aí o Boca ganhou tranquilidade e começou a tocar a bola, passar e penetrar na área. Saja trabalhou bastante. Tivemos UMA oportunidade apenas. Aos 43 ou 44, Lucas escapou da marcação, embarafustou-se pela direita e tocou para Diego Souza que arriscou o chute, acertando a trave da goleira. Digo-lhes com toda a sinceridade: eu disse todos os palavrões imagináveis, em Português, gauchês, espanhol, iídiche e russo. Daqueles de corar estivador. Garanto, porém, que a Senhorinha que estava ao meu lado era mais boca-suja do que eu.

Ruímos no segundo tempo, então. Voltamos muito mal. Desordenados, não conseguíamos marcar, reter a bola, muito menos avançar ou chutar em gol. Ironia: sabem aquele chute que o Diego Souza perdeu? O Riquelme fez aos 25 minutos. Do mesmíssimo lugar, Riquelme acertou a meta nossa. E eles estavam um a zero. E foi-se o boi com as cordas. Daí em diante, nada mais funcionava. O time estava apático e fora de si. Eram chutões e bolas sem fundamento. A torcida – inclusive eu – estava desesperada e dez minutos após o primeiro gol, Riquelme marcou o segundo, em um rebote. Aconteceu assim: os argentinos vinham em contra-ataque, Palacio recebeu a bola e chutou. Saja ainda conseguiu defender com o pé, meio sem jeito, mas quiseram os deuses do futebol que desse um rebote aos pés de Riquelme que marcou o segundo.

Ainda sofremos mais dez minutos em que os Argentinos ensebaram como apenas eles sabem fazer e em que estávamos perdidos em campo. Com sinceridade, tenho bronca do Mano Manezes desde aquela época porque, mesmo o respeitando como profissional, naquelas duas partidas da final ele não esteve à altura do time. Estava apático boa parte do tempo e não soube mexer no time quando precisávamos. Faltou qualidade e liderança.

Lembro-me que pegamos o carro após o jogo e pouco falávamos. Sintonizado na Rádio da Ipiranga (não existia Grêmio Rádio ou Rádio Hospício Tricolor então), ouvimos, lembro-me bem, que “perdêramos a libertadores mais fácil da História”, mas, em nenhum momento, ouvimos dizerem que perdêramos para a base da seleção argentina… Enfim, triste história de derrota para nós mesmos, para o adversário e para a imprensa isenta. E a pecha de time ruim ficou colada naquele elenco. As redes sociais não eram tão difundidas e abrangentes então. Não havia alternativas de informação, e, destarte, a turma da isenção prevalecia-se disso.

A IVI, em 2018, após nossa conquista da Libertadores em 2017 (na qual quiseram vir novamente com a balela de Libertadores mais fácil da História e do Caminho Fácil), vem com a mesma ladainha. Vejam o que disseram do Estudiantes e do Tucumán. Só que o tempo é outro. Ninguém mais engole ou compra os engodos da IVI. A equipe, hoje – como em 2017 – é muito melhor do que em 2007, seja na disposição dos jogadores, seja na própria liderança à beira do campo e na direção do clube. Só que a IVI não desiste, eles são incansáveis. E o mantra da facilidade vem com toda força, seja por causa do adversário, seja porque inventam estultices como favorecimentos do VAR. Como nunca, temos de estar vigilantes e entendermos que todas as técnicas e argumentos deles não são novos. São mais surrados e conhecidos que as aspas de Daleangus. Fiquemos vacinados porque a história da facilidade está apenas começando.

Um comentário em “A FACILIDADE DA LIBERTADORES

  • 22 de setembro de 2018 em 19:37
    Permalink

    Ótimo texto Volódia. Estou louco ou no segundo jogo na final teve uma cabeçada na trave do Schiavi? Tenho lembrança disso, acho que foi ainda no primeiro tempo… também estava no estádio, na Social do velho Olímpico, saí furibundo desse jogo, Teve esse jogo mesmo, se ganhar é uma LIbertadores fácil se perder é vexame. E olha que a IVI ainda não tava tão chata quanto estaria a partir da segunda tragédia, que foi a conquista vermelha no estádio de carpete em 2010…

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