A curta estação de uma vitória pífia

Havia um homem, um homem caído. Estirado no chão e sem dignidade na queda, o homem jazia imóvel. Quem seria…?

Um dia, antes de se tornar um dirigente de futebol, ele foi uma criança no bairro Menino Deus. Era aquele tipo de menino que, para cada namorada, riscava nos troncos das árvores um coração com as iniciais e a flecha do cupido.
Muitos anos se passaram. O menino virou um adulto em cuja alma as durezas da vida enraizaram e também riscaram iniciais com uma faca. Tornou-se amargo, debochado e sem remorsos. Apesar disto eventualmente a sorte lhe deu vitórias, e viveu momentos de glória imerecida encabeçando a direção de seu clube. A vaidade aflorou gigante, como a copa de um Baobá. A língua se encheu de espinhos venenosos, para ferir e humilhar seus desafetos.
Mas na primavera de 2016 a curta época de bonança terminou, mudando seu destino. Quem presenciou seu fim, contou que no dia a brisa soprava flores azuladas, brancas e escuras dos galhos das árvores, menos dos Carvalhos, que todos sabem não produzem flores. Na mais antiga destas árvores, muitos corações e iniciais no tronco, alguém tinha pendurado uma coleção de diferentes harpas eólicas, cada qual tocando uma balada digna de Lupicínio. As flores voavam dançando nesta canção de um lado para o outro, rodopiando alegres, subindo e descendo aos saltos, seguindo correntes invisíveis. Depois dos primeiros disparos, o vento assustou-se e fez uma parada para ver o que acontecia. Com o cessar do vento a maioria das flores desceu sobre o corpo estirado no chão, que aos poucos ia desaparecendo, se escondendo, se tornando pífio. As sirenes e giroscópios vermelhos encheram o ar com uma urgência nunca vista. Não se ouviam mais as harpas eólicas. Somente os carros da SWAT, tiros e os gritos desesperados dos torcedores daquele clube. O vento retornou, agora carregando 50 milhões em notas coloridas pelo ar, que em seguida desvaneceram como um sonho de verão em uma cobertura de Torres.

Mas as flores, que possuem mais gratidão e melhor memória do que os torcedores daquele clube, continuavam tranquilamente tentando esconder e proteger o homem caído sem dignidade no chão. As flores nunca perdoam, mas tem uma paciência imortal. Em sua virtude vencedora, vingavam as facadas recebidas ferindo só com o perfume arrancado das entranhas daquela terra, esquecida nos arrabaldes do sul da América Libertada. Três vezes libertada.

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