A COPA DO BRASIL DE 1994 – A CONQUISTA INVICTA

 

Na próxima quarta-feira, dia 15, estaremos com os pensamentos voltados para o Rio de Janeiro, mais precisamente para o estádio do Maracanã, onde disputaremos o jogo de volta contra o Flamengo. Na sexta-feira dia 10, porém, foi o aniversário da nossa conquista da segunda Copa do Brasil, em 1994. Muitos lembram da final polêmica em Porto Alegre, em que o árbitro Oscar Roberto de Godói ganhou protagonismo naquela partida. Achamos interessante trazer a todos uma análise daquele jogo e daquela conquista, por toda a trajetória daquele ano, eis que, além das novas gerações não terem visto e vivido aqueles momentos, servirá de inspiração para o desafio da quarta-feira que vem.
Gostamos de fazer o trabalho de resgate de memória do Grêmio. Por isso que fizemos colunas sobre ídolos gremistas dos anos 30, 40, 50 e 60, sobre conquistas históricas como a Libertadores de 1983 e a Copa do Brasil de 1997(que também conquistamos de forma invicta), esta última um texto da semana passada. Hoje, então, seja pela história em si, seja pela coincidência de datas, trazemos a nossa caminhada vitoriosa que nos levou àquela conquista na noite de 10 de agosto de 1994. O Grêmio, dirigido por Luis Felipe Scolari, campeão invicto, nunca é demais ressaltarmos, disputou 10 Jogos, sendo 6 Vitórias e 4 Empates. Marcou 13 Gols na competição, tendo levado apenas 6.

O Grêmio fora o campeão estadual de 1993, o que deu a vaga àquela competição nacional. Assim, estreamos na competição contra o Criciúma em 11 de fevereiro de 1994, tendo empatado em SC (2X2) e vencido, na semana seguinte, o jogo de volta (2×1). Notem que o jogo de estréia fora tenso e a nossa zaga deixara muito a desejar, o que fez parte da nossa torcida estar extremamente cética em relação à sorte na competição em si. Claro que alguns órgãos da imprensa da época fizeram questão de açular os ânimos e foi um Grêmio desacreditado pela imprensa mas apoiado pela torcida (após um intenso trabalho institucional do clube) que recebeu o Corinthians em casa, no Olímpico, para uma partida que, emocionante, mostrou um time ofensivo e veloz, tendo vencido a partida por 2×0 naquela noite de 19 de abril de 1994. O jogo de volta aconteceria mais de um mês depois, em São Paulo, no dia 28 de maio, e, em meio a uma polêmica arbitragem com reversões de falta, gols nossos mal anulados e pênaltis sonegados, conseguimos arrancar um empate heróico por 2×2, após estarmos atrás boa parte do tempo, de vez que o Corinthians abrira o placar e empatáramos com um gol de Nildo. Ainda no primeiro tempo, Marcelinho Carioca pusera os corintianos na frente. E só viríamos a empatar no segundo tempo, com um gol de Fabinho.

Ficáramos extremamente empolgados para a continuidade da competição. Passáramos com louvor para as quartas de final. Nosso adversário seguinte foi o Vitória. Enfrentamos o time baiano em Porto Alegre no dia 04 de junho. Neste jogo estávamos presentes. O Olímpico estava cheio e a torcida confiante. No entanto, o Vitória viera com uma proposta tal de jogo que bem poderia ter mudado seu nome àquela altura para Empate. Sim, inventaram um esquema 10-0-0 exasperante. Embora tenhamos visto excelentes atuações de Carlos Miguel e algumas defesas realmente memoráveis de Danrlei, o resultado foi magro, 1×0 para nós. Placar injusto, diga-se de passagem, de vez que tínhamos muito mais condições que o time baiano, e atacáramos insistentemente, mas o esquema montado pelo Felipão não foi capaz de furar o ferrolho baiano. O jogo, confesso, não me ficou particularmente gravado na memória. O fato mais notável naquele dia foi que eu e um primo esquecemos a minha tia no Olímpico ao voltarmos para casa, tendo eu ganho uns pilas do meu tio para assumir a culpa.

Fonte Nova, em 07 de junho, era o local da partida de retorno. E chegamos a Salvador confiantes. Afinal, esperava-se que o time baiano fosse mais ofensivo em casa o que, por certo, nos traria mais oportunidades de penetração e, conseqüentemente, de gol. Para nossa surpresa, não foi assim. Nós não só enfrentamos outra retranca memorável, como o Vitória parecia ter abdicado totalmente de qualquer anseio de vitória, perdoem o trocadilho. E assim, achamos um gol de bola parada. E foi só. Estávamos classificados para a semi-final contra o Vasco da Gama. Ganha um doce quem adivinhar quais as previsões da nossa querida imprensa isenta vermelha para nossas perspectivas de continuidade na Copa do Brasil.

E assim, contra tudo e contra todos, fomos ao Rio de Janeiro enfrentar o Vasco no dia 24 de julho. Embora tivéssemos uma campanha no mínimo equivalente, senão melhor (que eu acredito ter sido), àquela do Vasco (que enfrentara ABC, Santa Cruz e Atlético Mineiro), a imprensa gaúcha, isenta como sempre, previa “dificuldades incontornáveis”. As reportagens pareciam cópias daquelas que tinham escrito contra o Corinthians. O jogo foi morno e sem graça, para se dizer a verdade, e o empate em 0x0 levava a decisão para Porto Alegre e, assim, foi um Olímpico lotado que viu a equipe Tricolor vencer por 2×1. O Grêmio de Felipão, que enfrentou um Vasco de Lazaroni ofensivo ao extremo, foi de Danrlei; Ayupe, Paulão, Agnaldo e Roger; Pingo, Jamir, Leônidas (substituído por Emerson) e Carlos Miguel; Fabinho e Nildo.

O Vasco tinha começado melhor e logo no começo da partida, tirou o fôlego de todos nós porque teve uma enfiada veloz que redundou em um pênalti contra nós. Penalidade essa cobrada de modo ruim pelo jogador vascaíno. Esse susto acordou nossos jogadores. O Grêmio concentrou-se mais e mostrava-se superior. O nosso destaque foi o Nildo. Foi Nildo, aliás, que marcou os dois gols do Tricolor, aos 21 minutos do primeiro tempo e aos 27 do segundo. O gol vascaíno foi uma bobeada incrível do nosso time como um todo que, na verdade, já comemorava a passagem para a final, de vez que só foi marcado aos 45 do segundo tempo. Boa parte da torcida presente, inclusive esse que vos fala, não viu o gol vascaíno. Estávamos loucos de alegres para irmos à nossa quarta final da Copa do Brasil. Ganháramos a partida, mas quem lesse a Zero Hora do dia seguinte veria pérolas como um “Grêmio desestruturado” e que o primeiro gol nascera de um “lance confuso”. A IVI é antiga, meus amigos.

Estávamos na final. E enfrentaríamos o Ceará, sendo a primeira partida em Fortaleza. O Ceará desclassificara o inter, então a imprensa isenta estava impedida de dizer que o CE era fraco ou tomar aquelas frases que sempre lhe apraz, para desmerecer nossas conquistas. O Vozão, diga-se de passagem, eliminara não só a morangada, mas também o Palmeiras, e Felipão estava atendo a isso. Para a partida no Castelão, o Grêmio foi de Danrlei; André Vieira, Paulão, Agnaldo e Roger; Pingo, Jamir, Émerson e Carlos Miguel; Fabinho e Nildo. O estádio cearense lotado viu uma partida muito disputada no meio de campo, com raras penetrações na área gremista. Danrlei não foi exigido na partida, mas o Grêmio deu trabalho. O goleiro deles trabalhou e Nildo chegou várias vezes. Abusaram das faltas que, na verdade, não foram coibidas. O juiz foi bem caseiro. Não importava mais nada, na verdade, a decisão seria no dia 10 de agosto, em Porto Alegre. Já sentíamos o gosto do titulo, mas a cautela era tônica nas entrevistas após o jogo.

Dia 10. Olímpico. A Azenha, Porto Alegre, o Rio Grande inteiro em festa. Ora, Srs., e como poderia ser diferente? Estávamos em outra final da Copa do Brasil. Chegáramos àquele final, após 9 partidas, sem uma derrota! Claro que estávamos confiantes. Até demais, se querem saber. Confesso que cheguei ao Olímpico naquela noite, acompanhados do pai e do meu irmão, francamente já comemorando o nosso segundo título. Não havia gremista, por mais prudente que fosse – e aí não era nenhum desprezo pelo adversário – que não acreditasse no título naquela noite. Tínhamos um ingresso a mais. Um primo não pudera ir. Quando estacionamos o carro (parávamos sempre no mesmo lugar, em uma rua lateral , a Travessa Mato Grosso, na garagem de uma casa de família que alugava as vagas em dias de jogos), à porta havia um guri vendendo amendoim. Eu sempre o via ali. Daí eu perguntei-lhe se ele gostaria de ver o jogo. Ele, incrédulo, perguntou se eu falava sério e eu disse que sim. Pedi permissão à mãe dele, que a concedeu, e levamos o guri que, apesar de residir ali perto, nunca tinha ido ao Olímpico. E assim, fomos os quatro testemunhas daquela conquista.

O Olímpico estava pronto para uma baita festa de gala. E esta festa viria, tínhamos certeza. O clima dentro do estádio era muito bom. A festa, daquelas inesquecíveis, foi tal que eu fiquei completamente rouco ao final da partida. Mas desde cedo a torcida honrava a fama de ser a mais fanática do Brasil. O Grêmio entrou em campo com a formação seguinte: Danrlei; Ayupe, Paulão, Agnaldo e Roger; Pingo, Jamir, Émerson e Carlos Miguel; Fabinho e Nildo. Carlos Miguel, no decorrer da partida, seria substituído por Wallace. E Nildo, artilheiro, cederia lugar a Carlinhos. O Grêmio partiu para cima logo no início e deu resultado, eis que Nildo pegou a defesa cearense desprevenida e marcou o gol da Vitória logo aos três minutos. Pronto. Nada mais havia a se fazer. A festa instalara-se. Meu irmão não viu o gol. Estava comprando cerveja para nós e a fila, quilométrica, tardou demais. Até hoje, em família, dizemos “mais atrasado que o Guenadi em final de campeonato”.

Em campo, o clima esquentou. O time do Ceará, nervoso, recorreu a faltas, mas não se encolheu. Atacou muito e Aype, Paulão, Agnaldo e Roger seguraram muito bem o tranco. O jogo foi tão violento que, para terem uma ideia, foram 7 amarelos e dois vermelhos para o Ceará. Infelizmente, um lance da partida foi bem polêmico. Um suposto pênalti cometido por Wallace na área do Grêmio em cima do atacante cearense, Sergio Alves. Já vou logo adiantando, não foi penalidade, mas evidente que a IVI quis, de toda a sorte, manchar o título, atribuindo ao árbitro paulista um auxilio na não marcação. Só que Godói não errou. Não foi pênalti, eu insisto. Os dois jogadores acabaram-se embolando e caindo, um lance normal no qual o jogador do Ceará foi, sob as sonoras vaias dos torcedores presentes, exigir satisfação do juiz e terminou expulso. Descompensado, o Ceará ainda teria expulso mais um jogador. Podemos até considerar que, talvez, a expulsão foi injusta, mas penalidade máxima não foi!

E eis que o apito final soou. O Grêmio era o campeão da Copa do Brasil. Só isso.Tudo isso. Imortais na Alma, no Sangue e na Vida. Nada mais importava. Vi aquela volta olímpica e a comemoração intensa de todos nós que estávamos no estádio. Levamos horas para sair do Olímpico, até porque queríamos que aquele momento durasse o maior tempo possível.


E foi esta, amigos, a saga da Copa do Brasil de 1994. Bonita história, aliás. A segunda copa do Brasil, a primeira invicta, tendo Nildo, com 5 gols, e Carlinhos, com 3, os dois maiores marcadores. Em 1997 viria a terceira copa do Brasil, também invicta. Estava forjado o nome do Rei de Copas. Quando entrarem em campo na quarta-feira, dia 15, é essa tradição copeira e imortal que o time vai defender e honrar, com toda a certeza. Juntemos os dois relatos, de 1994, de hoje, e de 1997, trazido a vocês na semana que passou. Um passado de tantas glórias e conquistas enseja um presente tão ou mais glorioso e é por isso que todos aqui no Hospício Tricolor acreditamos de maneira incontestável na vitória que virá.

2 comentários em “A COPA DO BRASIL DE 1994 – A CONQUISTA INVICTA

  • 12 de agosto de 2018 em 14:33
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    Chorei como criança lendo os textos de 94 e 97. Lembrei de tudo aquilo. Vocês me fazem renovar diariamente o forte sentimento de como é bom ser gremista e me tornaram mais um louco. Forte abraço e muito obrigado. Cacalo – Luiz Carlos P. Silveira Martins
    Vice Presidente de futebol em 1994
    Presidente em 1997.
    Usei um e-mail emprestado que não gostaria que fosse divulgado

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    • 12 de agosto de 2018 em 19:34
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      Presidente Cacalo,

      As palavras que o Sr nos dirigiu emocionou a todo aqui. Nosso grupo é, antes de tudo, um conjunto de gremistas de todas as origens e crenças loucos pelo Grêmio. E saber que nossos textos sobre os títulos de 94 e de 97 emocionou um dos responsáveis por eles é muito gratificante.
      Obrigado, Presidente, pelos elogios e pelos Títulos!

      Resposta

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